por Beatriz Fontes
Olhando pela janela, Erivelton via – provavelmente pela última vez – a vizinhança onde havia crescido. Dali, ele via as crianças de hoje sendo felizes como ele jamais fora. Elas brincavam de pique, corriam, jogavam bola, subiam em árvores, coisas que ele nunca pôde fazer. Não porque as crianças de seu tempo não fizessem essas coisas. Elas faziam, sim. Ele que não, nunca. A ele nunca foi permitido. Sua mãe não deixava.
Erivelton olhava pela janela e sonhava com o mundo que estava prestes a conhecer. Seu pai havia morrido e, com isso, ele herdara uma pequena soma que lhe permitiria, ao menos, sair dali. Ir para longe. Longe da mãe. Ela não podia saber. Não sabia como ela reagiria se soubesse de seus planos de ganhar o mundo, sumir de vista, deixá-la só naquela casa. Mas ele não ficaria mais, não suportava mais.
Foi por um golpe de sorte que ficou sabendo da herança sem que ela estivesse por perto. Ela estava de cama no dia e mandou que ele fosse encontrar o advogado sozinho. Voltou do encontro contando que o pai havia deixado apenas a casa e algumas dívidas, nenhum dinheiro. A mãe ficou danada, praguejando contra o marido morto, sempre imprestável, segundo ela.
No caminho para casa, Erivelton encontrou Francine. A linda Francine, que povoava seus sonhos desde pequeno. A mesma Francine que sua mãe havia proibido de namorar porque vinha de família cigana. E nada pior do que os ciganos, dizia a mãe. Gente traiçoeira, inconstante, Francine certamente herdara todos os defeitos de seus pais, que ninguém sabia quem eram de fato.
No entanto, Erivelton, herdeiro de uma bolada, agora podia fazer o que quisesse: sair daquela casa, viajar e até falar com Francine. A mãe nada poderia fazer e, quando descobrisse, ele já estaria longe. Bem longe. E com Francine ao lado, que, afinal, não tinha nada de cigana: não sabia ler a sorte nas mãos, nem nas cartas, usava calça jeans e era filha de um casal muito respeitável. Eles, sim, não queriam que ela namorasse Erivelton porque a mãe dele vivia arrumando briga com todos os vizinhos.
Ele sabia bem como a mãe era difícil e nunca entendeu por que seu pai aguentou tanto tempo. Talvez fosse prisioneiro como ele. Talvez ele tivesse medo como ele. Mas medo de quê? Ele era adulto e tinha seu próprio ganha-pão. Não faz sentido. Só se tiver sido para protegê-lo. Sim, talvez o pai tivesse suportado aquele casamento por amor ao filho. Os olhos de Erivelton agora estavam cheios de lágrimas. Saudades do pai.
Logo Francine passaria ali de carro para buscá-lo. Iriam para o Sudeste. Provavelmente, para São Paulo, que ela sonhava conhecer desde sempre. A mãe chegaria no fim da tarde e não encontraria nem sinal dele. Ficaria enlouquecida, aos berros, sem nem desconfiar de nada. Bem feito.
Ele iria com Francine e seria feliz e trabalharia para ela, por ela. Ficaria ao lado dela até o fim, mesmo que ela só tenha concordado em ir com ele por causa do dinheiro. Mesmo que ela jamais assumisse um relacionamento com ele, nada disso importava. Ele tinha prazer, muito prazer em servi-la. Muito. Prazer. Adeus, mãe.
* Conto escrito como espelho de “Eveline”, conto de autoria de James Joyce.

