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terça-feira, 14 de abril de 2026

Erivelton*

por Beatriz Fontes


Olhando pela janela, Erivelton via – provavelmente pela última vez – a vizinhança onde havia crescido. Dali, ele via as crianças de hoje sendo felizes como ele jamais fora. Elas brincavam de pique, corriam, jogavam bola, subiam em árvores, coisas que ele nunca pôde fazer. Não porque as crianças de seu tempo não fizessem essas coisas. Elas faziam, sim. Ele que não, nunca. A ele nunca foi permitido. Sua mãe não deixava.

Erivelton olhava pela janela e sonhava com o mundo que estava prestes a conhecer. Seu pai havia morrido e, com isso, ele herdara uma pequena soma que lhe permitiria, ao menos, sair dali. Ir para longe. Longe da mãe. Ela não podia saber. Não sabia como ela reagiria se soubesse de seus planos de ganhar o mundo, sumir de vista, deixá-la só naquela casa. Mas ele não ficaria mais, não suportava mais. 

Foi por um golpe de sorte que ficou sabendo da herança sem que ela estivesse por perto. Ela estava de cama no dia e mandou que ele fosse encontrar o advogado sozinho. Voltou do encontro contando que o pai havia deixado apenas a casa e algumas dívidas, nenhum dinheiro. A mãe ficou danada, praguejando contra o marido morto, sempre imprestável, segundo ela. 

No caminho para casa, Erivelton encontrou Francine. A linda Francine, que povoava seus sonhos desde pequeno. A mesma Francine que sua mãe havia proibido de namorar porque vinha de família cigana. E nada pior do que os ciganos, dizia a mãe. Gente traiçoeira, inconstante, Francine certamente herdara todos os defeitos de seus pais, que ninguém sabia quem eram de fato.

No entanto, Erivelton, herdeiro de uma bolada, agora podia fazer o que quisesse: sair daquela casa, viajar e até falar com Francine. A mãe nada poderia fazer e, quando descobrisse, ele já estaria longe. Bem longe. E com Francine ao lado, que, afinal, não tinha nada de cigana: não sabia ler a sorte nas mãos, nem nas cartas, usava calça jeans e era filha de um casal muito respeitável. Eles, sim, não queriam que ela namorasse Erivelton porque a mãe dele vivia arrumando briga com todos os vizinhos. 

Ele sabia bem como a mãe era difícil e nunca entendeu por que seu pai aguentou tanto tempo. Talvez fosse prisioneiro como ele. Talvez ele tivesse medo como ele. Mas medo de quê? Ele era adulto e tinha seu próprio ganha-pão. Não faz sentido. Só se tiver sido para protegê-lo. Sim, talvez o pai tivesse suportado aquele casamento por amor ao filho. Os olhos de Erivelton agora estavam cheios de lágrimas. Saudades do pai.

Logo Francine passaria ali de carro para buscá-lo. Iriam para o Sudeste. Provavelmente, para São Paulo, que ela sonhava conhecer desde sempre. A mãe chegaria no fim da tarde e não encontraria nem sinal dele. Ficaria enlouquecida, aos berros, sem nem desconfiar de nada. Bem feito. 

Ele iria com Francine e seria feliz e trabalharia para ela, por ela. Ficaria ao lado dela até o fim, mesmo que ela só tenha concordado em ir com ele por causa do dinheiro. Mesmo que ela jamais assumisse um relacionamento com ele, nada disso importava. Ele tinha prazer, muito prazer em servi-la. Muito. Prazer. Adeus, mãe.    


* Conto escrito como espelho de “Eveline”, conto de autoria de James Joyce.



sábado, 12 de novembro de 2022

O dia em que fui buscar um livro no sebo

Fui finalmente até o sebo resgatar o meu exemplar usado de A república dos sonhos. Saí de casa de blusa de manga comprida e calça porque o Climatempo jurou que ia chover o dia inteiro. Tá um sol dos infernos e fui eu a pé até o sebo. 

Chego lá, descubro que existem dois sebos (e eu poderia gastar um tempo falando do gato sialata desmaiado sobre os CDs da entrada, mas deixei ele quieto): um em cima e outro embaixo. Subo pro sebo certo. No caminho, vejo um exemplar de 2666, do Roberto Bolaño, mas não paro para ver. Subo. 

Duas mulheres estão na recepção do sebo, que virou um salão de beleza (mas a beleza é questionável). Inúmeros apliques de cabelo espalhados sobre a mesa, que uma está acho que tirando da cabeça da outra. Peço o livro, não aceitam cartão, só dinheiro, não tenho dinheiro, não aceitam pix, ando até o Itaú mais próximo, no meio do Saara. 

Banco vazio, ô sorte, só que não, caixas com notas de 50 ou 100 reais. E a moça lá do sebo avisou que era pra levar trocado que ela não ia ter troco. Entro na fila dos caixas, duas pessoas na minha frente, não faço ideia de quanto tempo esperei, pareceu uma eternidade, mas consegui sacar. 

Voltei. Reservei o Bolaño, que também custava 25 reais, e subi pra buscar o da Nélida. Espero que seja bom mesmo, depois disso tudo. O do Bolaño, no sebo de baixo, consegui comprar no cartão. De crédito. Na saída do sebo, fiz carinho no gato, que nem abriu os olhos para me ver. 

Ao invés de encarar o caminho de volta até o trabalho, paguei feliz uma passagem de VLT até a Central, comecei a folhear os livros, e li o início da República... E, bem, talvez nem seja tudo isso, mas já me ganhou na primeira frase: “Eulália começou a morrer na terça-feira” (e era uma terça!). Vim pensando no peso extra que carregaria para casa no metrô. Enfim, perdoem a crônica, mas eu precisava desabafar. 

Curiosidade: Bolaño não considerava Nélida uma boa escritora; Nélida o considera um sujeito desagradável (e provavelmente era mesmo). Quanto a mim, penso que nem sempre dá para separar sujeito e obra, porque muitas vezes a obra reproduz todos os defeitos do próprio autor. No entanto, algumas vezes, a obra é o que aquela pessoa tem de bom a oferecer. Então, vamos às obras. 


Nélida e Bolaño de costas para o Campo de Santana.


P.S.: Reativei o blog, mais de 10 anos depois, mas ainda não sei com que frequência escreverei aqui.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

A vizinha, o coelho e a pipoca

Não moro em prédio. E acho super estranho o costume que as pessoas têm de cumprimentarem desconhecidos nos elevadores, nas filas, nos pontos de ônibus. Sou péssima nessa história de desejar “bom dia” para estranhos, mas sigo tentando, embora confesse que, na maior parte das vezes, meu cumprimento deva soar ininteligível, um mero grunhido. Afinal, para piorar tudo, sou tímida e sinto uma quase inveja dos despudorados que saem por aí desejando bons dias, boas tardes e boas noites a quem quer que seja. Bem, tudo isso é para tentar justificar o que muitos entendem como falta de educação.

Já melhorei bastante. Hoje, sou capaz de responder claramente ao cumprimento recebido. Se me desejam bom dia, desejo de volta. E, no trabalho, eu já falo com os ascensoristas com alguma tranquilidade... Bem, depois de mais de dois anos de trabalho, não posso considerá-los desconhecidos (mas estranhos eles são, sério!). Dou bom dia, sorrio e torço (se fosse religiosa, rezava) para não puxarem assunto comigo. É que ainda acho as conversas de elevador super constrangedoras...

Por conta desta minha tentativa de aprimorar minhas práticas sociais, há alguns anos, passei a cumprimentar uma vizinha que sempre via quando estava a caminho do ponto de ônibus. Isso fez com que, em algum momento, ela se sentisse à vontade para puxar conversa, obviamente. O pior é que, desde que a vi pela primeira vez, achei-a esquisita, com cara de maluca mesmo. A filha dela, então, me parecia um monstrinho... E o marido, ah!, esse até hoje me assusta... Psicopata define. Dos três é quem mais vejo, passeando com os cachorros, mas ele não fala comigo (yeah!).

Então, ela se apresentou (e eu não lembro o nome dela, nem de nada do que ela falou sobre si) e me perguntou uma série de coisas... Estar com ela, embora por breves momentos, sempre suscita interrogatórios ou diálogos bizarros. Como no dia em que ela me perguntou sobre meu marido e quase me abraçou quando contei que ele havia morrido. Eu nem sabia que ela sabia que eu era casada! Foi um dos momentos em que mais tive medo, sinceramente. Imagina se ela me abraça? Ai... Terror, pânico, desespero!

Teve uma noite dessas em que eu estava em casa sozinha, acho que chovia (não sei se realmente chovia ou se apenas a chuva me parece apropriada para a situação), já era razoavelmente tarde... E tocou a campainha. Não esperava ninguém e atendi meio desconfiada. Talvez fosse o vigia para me avisar que a gata estava presa em algum lugar... A rua estava escura, não dava para ver direito quem estava no portão. Então, ela falou:

 Beatriz, sou eu! Fulana! (ela falou o nome, mas eu realmente não lembro...)

Enquanto eu tentava me recobrar do susto, ela continuou:

 Será que você não quer um coelho? Olha que bonitinho (apontando para uma bola de pelo de aspecto indecifrável)... É que eu ganhei e não vou poder ficar! Lembrei de você, porque sei que você gosta de bicho...

Claro que eu disse que não, expliquei que as cachorras comeriam o coelho, mas estava tão espantada que mal conseguia falar. Fiquei com medo de que ela deixasse o tal coelho na caixa de correio ou algo assim... Mas ela entendeu e se foi, decepcionada.

Depois disso, fiquei um tempo sem vê-la. Até porque mudei de ponto de ônibus e quase não passo na porta da casa dela. Entretanto, há poucas semanas, estava eu em casa num dia de semana quando a ouvi perguntar à empregada se ela não podia fazer pipoca para ela no meu micro-ondas. É isso mesmo! Pipoca, micro-ondas. Esperta, a Nena se esquivou dizendo que não sabia mexer no aparelho e que eu não estava. Fiquei bem escondida e ela foi embora.

À noite, porém, estava eu trabalhando distraída na sala, perto da janela, quando ouço me chamarem da rua... Era ela, de novo! E com o pacote de pipoca! Gelei... Ela me perguntou se eu não podia fazer a pipoca pra ela e na minha cabeça só ecoava a voz da Nena dizendo que era abuso, que era melhor dar uma desculpa qualquer para não criar costume... Mas eu não podia dizer que não sabia mexer, né?

Bem, pedi a ela para abrir o portão, peguei o pacote, fiz a pipoca e fui até o portão para devolver. Ela me perguntou se eu não trancava o portão de fora, se as cachorras não mordiam, se eu não tinha medo de morar ali sozinha... Ficou parecendo assaltante sondando o terreno. Mais uma vez, senti medo. Espero que isso não vire um hábito. A casa ficou cheirando enjoativamente a manteiga por horas, porque a pipoca era uma tal "de cinema". Talvez da próxima vez eu diga que o micro-ondas quebrou.

Bicudinha e Balu protestam:
"Queremos um ooelho para brincar!"