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segunda-feira, 30 de julho de 2012

A vizinha, o coelho e a pipoca

Não moro em prédio. E acho super estranho o costume que as pessoas têm de cumprimentarem desconhecidos nos elevadores, nas filas, nos pontos de ônibus. Sou péssima nessa história de desejar “bom dia” para estranhos, mas sigo tentando, embora confesse que, na maior parte das vezes, meu cumprimento deva soar ininteligível, um mero grunhido. Afinal, para piorar tudo, sou tímida e sinto uma quase inveja dos despudorados que saem por aí desejando bons dias, boas tardes e boas noites a quem quer que seja. Bem, tudo isso é para tentar justificar o que muitos entendem como falta de educação.

Já melhorei bastante. Hoje, sou capaz de responder claramente ao cumprimento recebido. Se me desejam bom dia, desejo de volta. E, no trabalho, eu já falo com os ascensoristas com alguma tranquilidade... Bem, depois de mais de dois anos de trabalho, não posso considerá-los desconhecidos (mas estranhos eles são, sério!). Dou bom dia, sorrio e torço (se fosse religiosa, rezava) para não puxarem assunto comigo. É que ainda acho as conversas de elevador super constrangedoras...

Por conta desta minha tentativa de aprimorar minhas práticas sociais, há alguns anos, passei a cumprimentar uma vizinha que sempre via quando estava a caminho do ponto de ônibus. Isso fez com que, em algum momento, ela se sentisse à vontade para puxar conversa, obviamente. O pior é que, desde que a vi pela primeira vez, achei-a esquisita, com cara de maluca mesmo. A filha dela, então, me parecia um monstrinho... E o marido, ah!, esse até hoje me assusta... Psicopata define. Dos três é quem mais vejo, passeando com os cachorros, mas ele não fala comigo (yeah!).

Então, ela se apresentou (e eu não lembro o nome dela, nem de nada do que ela falou sobre si) e me perguntou uma série de coisas... Estar com ela, embora por breves momentos, sempre suscita interrogatórios ou diálogos bizarros. Como no dia em que ela me perguntou sobre meu marido e quase me abraçou quando contei que ele havia morrido. Eu nem sabia que ela sabia que eu era casada! Foi um dos momentos em que mais tive medo, sinceramente. Imagina se ela me abraça? Ai... Terror, pânico, desespero!

Teve uma noite dessas em que eu estava em casa sozinha, acho que chovia (não sei se realmente chovia ou se apenas a chuva me parece apropriada para a situação), já era razoavelmente tarde... E tocou a campainha. Não esperava ninguém e atendi meio desconfiada. Talvez fosse o vigia para me avisar que a gata estava presa em algum lugar... A rua estava escura, não dava para ver direito quem estava no portão. Então, ela falou:

— Beatriz, sou eu! Fulana! (ela falou o nome, mas eu realmente não lembro...)

Enquanto eu tentava me recobrar do susto, ela continuou:

— Será que você não quer um coelho? Olha que bonitinho (apontando para uma bola de pelo de aspecto indecifrável)... É que eu ganhei e não vou poder ficar! Lembrei de você, porque sei que você gosta de bicho...

Claro que eu disse que não, expliquei que as cachorras comeriam o coelho, mas estava tão espantada que mal conseguia falar. Fiquei com medo de que ela deixasse o tal coelho na caixa de correio ou algo assim... Mas ela entendeu e se foi, decepcionada.

Depois disso, fiquei um tempo sem vê-la. Até porque mudei de ponto de ônibus e quase não passo na porta da casa dela. Entretanto, há poucas semanas, estava eu em casa num dia de semana quando a ouvi perguntar à empregada se ela não podia fazer pipoca para ela no meu micro-ondas. É isso mesmo! Pipoca, micro-ondas. Esperta, a Nena se esquivou dizendo que não sabia mexer no aparelho e que eu não estava. Fiquei bem escondida e ela foi embora.

À noite, porém, estava eu trabalhando distraída na sala, perto da janela, quando ouço me chamarem da rua... Era ela, de novo! E com o pacote de pipoca! Gelei... Ela me perguntou se eu não podia fazer a pipoca pra ela e na minha cabeça só ecoava a voz da Nena dizendo que era abuso, que era melhor dar uma desculpa qualquer para não criar costume... Mas eu não podia dizer que não sabia mexer, né?

Bem, pedi a ela para abrir o portão, peguei o pacote, fiz a pipoca e fui até o portão para devolver. Ela me perguntou se eu não trancava o portão de fora, se as cachorras não mordiam, se eu não tinha medo de morar ali sozinha... Ficou parecendo assaltante sondando o terreno. Mais uma vez, senti medo. Espero que isso não vire um hábito. A casa ficou cheirando enjoativamente a manteiga por horas, porque a pipoca era uma tal "de cinema". Talvez da próxima vez eu diga que o micro-ondas quebrou.

Bicudinha e Balu protestam:
"Queremos um ooelho para brincar!"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Good morning, Mr. Murphy!

Você precisa fazer um exame de sangue, mas não acha o pedido em lugar algum. O tempo vai passando, a data da próxima consulta - na qual você deverá apresentar o exame - se aproxima. Daí, você resolve apelar, liga para o médico, explica à secretária qual a situação e ela diz que é só passar lá no dia seguinte de manhã para pegar um novo pedido. Já estará prontinho, esperando...

Então, você vai dormir em jejum. Acorda, se arruma e passa no consultório do seu médico... E descobre que ele errou seu sobrenome. Pronto! Murphy deu as caras. Você devia era ter ficado em casa, remarcado a consulta... É certo que, a partir daí, tudo vai desandar. Bobagem? Vejamos:

De posse do novo pedido, que precisou que o médico terminasse a consulta que estava em andamento no momento em que você chegou ao consultório, você segue para o laboratório. Ele está lotado, obviamente. Você pega uma senha e percebe que há apenas seis pessoas na sua frente. Ok, não é tão ruim. Você ainda tem quase uma hora até que o jejum torne-se excessivo para a realização do exame de sangue. O que fazer? Aguardar e torcer para que tudo corra rápido, claro.

Rápido? Não, Murphy só acelera o que não presta... Na entrada do laboratório, um cartaz avisa que os que têm horário marcado NÃO precisam de senha. Resultado: as DUAS atendentes não dão conta da demanda, ora. Em meia hora de espera, apenas dois números das senhas são chamados. O que fazer senão desistir? Em quinze minutos, você já não poderá mais fazer a coleta. Você ainda nem entregou o pedido! Até chamarem para o exame propriamente dito, imagine o tempo.

É hora de levantar, zonza de fome. Você se dirige a uma atendente para pegar um formulário de (in)satisfação e escreve um rápido desabafo. Ao colocar a reclamação na caixinha, você vê seu número ser chamado: a isso se dá o nome de "requintes de crueldade". Saia daí, logo! É preciso comer alguma coisa e, saindo do laboratório, você vê o Palheta quase sem fila. Pede um espresso e uma broa de milho, espera. Ao seu lado, um grupo de senhoras conversa sobre a vida. Aparentemente, o assunto surgiu ali, elas nunca se viram antes, mas as frases são pesadas: "viver dá câncer" é o ápice. Ok, baita dia auspicioso esse...

Você engole o café e come a broa enquanto ouve as frases de efeito das senhorinhas... Vai para o Metrô, pois é preciso correr para o trabalho, afinal. Seu cartão, como era de se esperar, tem saldo insuficiente e há fila tanto na bilheteria quanto na única máquina de recarga. Você espera, já achando tudo meio engraçado. Afinal, há uma certa graça nisso tudo, não? O jeito é relaxar e ir para a plataforma esperar o trem.

A espera nem demora tanto. Opa! A coisa tá melhorando...? Não, claro que não. Um sujeito careca e capoeirista (é o que sugere a camiseta que ele veste) parece falar sozinho. Na verdade, ele está ao telefone, mas com aqueles fones de ouvido ridículos que permitem que ele não use as mãos. Ele está no meio de uma DR com uma tal de Bárbara, que ele não para de recriminar um só segundo e parece que vai viajar, mas ele tinha passado no dia anterior para se despedir e ela não foi carinhosa o bastante... Você pensa: ok, daqui a pouco a ligação cai. Não, querida, cairia se fosse o SEU telefone. O do moço continua firme e forte, assim como a DR, que dura pelo menos até a Central. 

Você sempre tem um livro na bolsa, seu ipod e os fones de ouvido, certo? Errado: quase sempre. Você poderia ser como a pessoa que ouve som sem fone do outro lado do vagão, mas não, ainda lhe resta algum senso de civilidade. Qual a solução? Respire fundo, a Carioca está chegando. Desça do vagão sem olhar para os lados, não pare no meio do caminho... Exceto para esperar o sinal, que acabou de fechar, abrir novamente. E prepare-se para um excelente dia de trabalho, porque... AINDA não é sexta-feira!




sábado, 31 de março de 2012

Arteterapia, um novo caminho a trilhar

Comecei esta semana o meu curso de formação em arteterapia. Não sei o que esperar, não faço ideia do que farei com isso, mas sei que tive vontade de fazer e me pareceu uma boa experiência: leve, rica e divertida. Logo na primeira aula, nos pediram para criar uma "joia" utilizando o material disponível (contas de várias cores e tamanhos, fios...). Não tive muita dúvida em me decidir por um colar, do tipo mais simples possível. Então, peguei uma conta e decidi que ela seria o fecho.

Cortei apressadamente um pedaço de fio, medindo-o timidamente no meu pescoço. Escolhi uma pedra maior, bonita, para ficar no centro e algumas outras para ficar na lateral. Não vivi grandes dilemas, não tive insights, apenas queria terminar aquilo logo, me desincumbir da tarefa que me deram. Foi quando me dei conta de que o fio que eu havia cortado era pequeno demais. Na pressa, na ânsia de terminar logo, eu havia medido sem considerar que eu precisaria dar um nó na outra extremidade, para fechar.

Que fazer? Adaptar-se, obviamente. Cortei outro fio, de outra cor (porque o fio da cor original havia acabado), recoloquei conta por conta, dei o nó, experimentei o colar e dei meu trabalho por terminado. Não fez muita diferença terminar logo, já que eu tive que esperar todos terminarem... E fiquei sinceramente surpresa com um ou outro colar que vi surgir, em tão pouco tempo. O meu colar, embora o resultado final tenha me deixado ligeiramente orgulhosa, era tão pueril perto de alguns... Deu um misto de raiva e inveja, até, mas passou rapidinho.

Em seguida, recebi papel e caneta para escrever sobre a experiência, mas o fato é que prefiro digitar. Por isso, resolvi abrir espaço aqui no blog para o relato. Não sei se farei isso outras vezes, mas achei que valia a pena compartilhar esta primeira experiência, que me fez ver como minha cabeça funciona. Eu gosto de estabelecer objetivos, não curto andar à deriva. Mas entendi, com o tempo, que não adianta a gente ser rígido demais, porque o desfecho nem sempre é o que a gente planeja. É preciso adaptar-se. Tal qual eu fiz com o singelo fecho do meu colar.

Eis o tão falado colar... Só falta tirar foto do fecho! rs

sábado, 10 de março de 2012

Eu tenho um vício...

Sim, um vício: eu gosto de sapatos. Ok, não chego a ser nenhuma Imelda Marcos. Estou até bem longe disso... Meu vício, atualmente, está sob controle. Não tenho mais comprado tantos sapatos e tenho me esforçado para usar os que tenho. Quando percebo que não os suporto mais, que machucam meus pés ou que estão vergonhosamente caindo aos pedaços, sem mais remédio que não jogá-los no lixo ou doá-los, faço isso sem pena. E pronto.

Para me ajudar na tarefa, criei o Aos meus pés. Trata-se de um tumblr em que brinco de exibir meus sapatos e meus pés, para registrar o modelo que estou usando ou mesmo a cor do esmalte da vez. A ideia surgiu uma noite na Lapa, em conversa com a Juliana e a Mila, amiga dela. A esta última, que conheci naquele dia, devo o nome e a própria solução para o problema. Jamais esquecerei! 

O legal é que isso acabou virando uma brincadeira: volta e meia paro no meio da rua, celular em punho para fotografar meus pés. Imagino o que as pessoas não devem achar... Uso o Instagram para fotografar ou, ao menos para tratar as fotos e publicar no tumblr. Ah, a modernidade! O que seria de mim sem um iPhone e uma conexão 3G, ainda que tosca como a da Tim? Quem me viu quem me vê... rs

Desde o início, para evitar a repetição desnecessária de sapatos, busco compartilhar, também, outras imagens, vídeos, músicas e textos relacionadas a pés e/ou sapatos. Recentemente, passei a aceitar visitantes e tenho incentivado meus amigos a enviar fotos de seus próprios pés ou sapatos. Para isso, basta que os interessados me enviem suas fotos para análise. Se eu achar que vale a publicação, vai pro ar. Simples assim... Alguém se anima? ;-)

Ah!!! Hoje, meses depois da primeira publicação, é um dia histórico... É a primeira vez que repito um modelo, minha botinha da Imporium que tanto amo. A foto foi tirada em outubro, na viagem que fiz com minha prima Gê e a Elisa, autora da foto (que só agora a enviou). Afinal, estávamos na terra de Van Gogh e, na boa, minhas botas parecem inspiradas no quadro dele, não? 


Minhas botinhas, clicadas por Elisa Madi em Amsterdam (out./2011),
podem ser vistas em aqui.


Os famosos sapatos de Van Gogh. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

As manias de Dona Gatinha

Minha gata é velha. Era da minha avó, que adorava gatos e que a deixou de herança para o Flávio, que foi adotado por ela quando minha avó morreu. Ela é de 98 ou 99, não tenho certeza, e apareceu aqui ainda filhote, arredia que só. Flávio morreu, e a Gatinha não teve outro remédio que não me adotar. Me faz companhia quando estou em casa, resmunga por tudo (e eu resmungo de volta, claro). É uma faminta com TOC, pois o pote de comida precisa estar sempre cheio. E a comida deve ser constantemente sacudida. Além disso, ela exige plateia para comer. Um porre, mas tenho visto que isso é normal. Gatos são assim e, assim como nós, suas manias não melhoram com o tempo. Pioram, e muito. 

Ontem, percebi que minha gata, além de velha, é burra. Porque, ao sentir-se acuada por dois cachorrões que passavam pela rua, ela - que estava no jardim, protegida pelas grades do portão - correu na direção deles. Quase virou patê de gato na minha frente. Ninguém me contou: eu vi. E, sinceramente, não poderia culpar os cachorros caso conseguissem o intento de mordê-la. Ainda que fosse brincadeira, como sugeriu a dona deles... Ok, sei que ela estava estressada com a presença do pintor velho e surdo que está trabalhando aqui em casa, mas não consigo compreender o instinto suicida dessa gata doida. Penso que talvez seja alzheimer. Gatos também têm isso?

Creio que, com o passar dos anos, ela vem esquecendo os princípios básicos de sobrevivência... Isso, aliás, explicaria as brigas que ela vem tendo na rua com os gatos da vizinhança. Os mesmos gatos que, se invadirem minha casa para roubar a comida dela, ela é incapaz de se mexer para impedir. Vá entender uma coisa dessas... Na rua, ela é uma fera e atualmente exibe no lombo dois ferimentos de batalha. Ah! E antes que me perguntem... Sim, ela é castrada. E, não, não costumava brigar pela rua... Ah, se minha avó visse isso... Ficaria preocupadíssima!

Hoje, novamente, ela me deu provas consistentes de sua crescente inaptidão. É o seguinte: o já mencionado pintor velho e surdo tirou um banco velho do lugar. Este banco ficava na frente da casa, debaixo da janela por onde Dona Gatinha costuma sair para passear na rua. Ela sai sem problemas, mesmo sem o banco; o problema é a volta. Lady Cat, esta frajolinha anciã que está aqui do meu lado encarando a estante (como de costume) não tem mais segurança para dar grandes saltos (apesar de se meter em brigas na rua, note-se mais uma vez). Então, como ontem ela resgungomiou pra cacete antes de pular para a janela, resolvi facilitar o acesso hoje. Antes, encorajei-a a simplesmente pular como ontem. Não rolou. Por isso, saí, peguei uma cadeira e botei embaixo da janela, exatamente onde costumava ficar o banco. Ela olhou, cheirou, resmungomiou infinitamente.... E nada.

Saí novamente, ela fugiu de mim. Voltei, busquei ração e saí feito uma idiota pela rua tentando convencê-la de que sou uma pessoa legal e não estava tentando matá-la. Levou tempo. Isso porque sou eu que a alimento todos os dias, escovo o pelo dela, enfim sou mucama desta gata maluca. Mas, bem, como eu já disse lá em cima, parece que isso é assim mesmo, né? Gatos... ;-) 



Tá olhando o quê? Vai encarar?

Vem Gatinha, pode entrar...



quinta-feira, 1 de março de 2012

O bolo espatifado

O ano era 2007. Eu ia casar e andava às voltas com os preparativos da festa. Havia acabado de contratar a Kika para botar ordem no terreiro, porque logo me dei conta de que precisava de ajuda. Definitivamente, organizar uma festa para 200 pessoas e definir quem será convidado ou não é muito, muito, muito complicado. Só quem passou por algo parecido sabe como é... É aquele primo distante do seu pai que ele insiste em convidar porque, décadas atrás, chamou para o casamento de um filho. Ou aquela amiga da sua mãe que você não suporta, mas que ela faz questão de chamar. E você não pode dizer não, porque o dinheiro não está saindo do seu bolso... Um inferno.

Naquela terça-feira, eu tinha marcado uma reunião com a Kika para começarmos a definir alguns detalhes do casório, marcado para outubro. Acontece que, naquele dia, 24 de abril, Flávio completava 38 anos e aproveitaríamos também para comemorar. Eu ainda não trabalhava na CNC, mas lembro de ter ido à Casa de Espanha para ter aula à noite. A marajó ainda existia. E, se não estou embaralhando tudo, foi nesse dia que precisei trocar pela primeira vez o pneu do meu carro.

Não faço ideia de quando comprei o bolinho para o Flávio e tampouco sei se foi na Lecadô ou na Tati. Certamente, num dos dois lugares. Lembro, apenas, de sair da aula e descer para o estacionamento, onde peguei o carro e segui para a saída. Chegando lá, me dei conta de que um pneu estava vazio. Ninguém me ajudou sequer a encostar o carro. Muito menos a trocar o pneu. Meu professor passou de moto por mim, rindo, e não deu a mínima. Aliás, foi naquele momento que percebi que não valia a pena manter qualquer relação extraclasse com ele. Liguei, então, desesperada para o Flávio, que disse que estava indo para lá, mas ia demorar.

Eu já havia marcado com a Kika na Tijuca e fiquei com medo de não conseguir chegar a tempo. Então, botei mãos à massa. Flávio chegou quando eu estava terminando o serviço, bem a tempo de me ajudar com os apertões finais. Confesso que me senti meio orgulhosa. Fomos, então, encontrar a Kika no Baobá, que já nem existe mais. Creio que estávamos eu, Flávio, ela, Michelle, Jaqueline e, provavelmente, Juliana. Conversamos, cantamos parabéns, comemos bolo.

Entramos na marajó. Não lembro se todos, mas o que me faz acreditar que a Juliana estava junto é que viramos na Conde de Itaguaí e descemos a Conde de Bonfim em direção à Praça. Seria a única razão para viramos para lá, já que a Michelle mora perto de mim, a Jaque mora perto do Sesc e a Kika, no Grajaú. Na última vez em que toquei neste assunto com a Jaque, ela disse não lembrar desse dia. A Michelle também não lembra direito. Não sei a Juliana...

Bem, tudo isso é porque ontem eu estava andando a pé pela Conde de Bonfim, voltando para casa, e passei pela esquina da rua Henry Ford. Com isso, lembrei do dia em que fiz a curva com o resto do bolo do Flávio esquecido em cima do carro. Pessoas, na esquina, fizeram sinal para me alertar de que havia algo fora de lugar, mas não dei importância. Fiz a curva com vontade e só ouvimos o ploft. Levamos um tempo até identificar a origem do som. Rimos. Decidi escrever porque minha memória já não é mais a mesma e achei melhor deixar registrado. Talvez não tenha sido nada disso, talvez tenha misturado tudo... O tempo é traiçoeiro e prega peças na gente. Não importa. Deixo aqui o que lembrei. Porque o bolo era uma delicia e fiquei chateada por ele ter se espatifado no chão. Antes o tivesse deixado para os garçons.

Nem todo gato que cai da janela tem um fim tão triste
quanto o do bolo de aniversário espatifado...

domingo, 24 de julho de 2011

"Você tem fome de quê?

Sexta passada, na hora do almoço, fui abordada por um sem-teto em plena Cinelândia. O tempo estava virando e eu procurava um lugar para almoçar. Ele veio logo me dizendo que não ia me assaltar, que não ia me pedir dinheiro, apenas comida. Eu disse que não tinha dinheiro, mas ele respondeu: "Olha, dona, eu estou com muita fome, se a senhora puder comprar qualquer coisa no cartão, eu agradeço". Concordei, e ele me apontou uma padaria na Álvaro Alvim.

No caminho, ele foi me dizendo que não entendia por que essa prefeitura dizia na TV que estava recolhendo todos os moradores de rua, já que isso é uma tremenda mentira. Segundo ele, essa história de abrigo é uma farsa, pois, ao chegar lá eles fazem o seguinte: examinam os olhos deles e coletam um pouco de sangue, só para ver se eles são usuários de crack. Estes são os que ficam nos tais abrigos. Os demais são liberados, sem receber sequer comida. E, por isso, ele estava faminto, pois tinha passado a manhã inteira em função da prefeitura.

O sujeito era muito articulado. Chegando na padaria, pediu que lhe comprasse um açaí, produto da terra dele, Belém. Eu perguntei se um açaí não seria muito pouco, se ele não queria também um salgado. E ele: "Ih, dona, o que a senhora quiser comprar pra mim eu aceito. Não pergunta muito, não, senão a senhora vai acabar gastando todo o seu cartão comigo". E riu.

Entrei na fila do caixa e, enquanto esperava para pagar, ele comentou: "Ih, a senhora tem uma tatuagem no pescoço!" Eu achei aquela reação engraçada e perguntei: "Tenho, sim, por quê?" E ele: "É que eu tenho uma dessas também, na perna". "Uma dessas?", estranhei. "Uma maçã?"


"Sim, uma maçã mordida.Arrancaram um pedaço dela."

Depois, disso, entreguei o papel para ele pegar o lanche dele e saí fora antes que ele quisesse me mostrar a tatuagem dele. Afinal, vai que, né? ;-)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Qualquer semelhança é mera coincidência?

Estava eu no McCafé, tomando um expresso com o pessoal do trabalho, quando engoli em seco e fiquei muda: por alguns instantes, tive certeza de que meu tio Marinaldo caminhava em minha direção. Diante daquela visão do além, pensei: "Porra, isso lá é hora de ver defunto?" Fiquei pensando: "Bem, vai ver que ele tem algum recado pra mandar... Mas por que eu, cara? Por quê?" Eu era nova no trabalho, não conhecia o pessoal direito e fiquei imaginando o que eles iam achar daquilo...

Como não consegui disfarçar meu embaraço, saí apontando o sujeito para todos os meus colegas, torcendo para que eles também o vissem. Eu dizia: "Olha lá, é igual ao meu tio Marinaldo!", como se eles soubessem quem havia sido o Marinaldo. Então, me dei conta de que era apenas um sósia bizarramente parecido com meu tio. Afinal, todos o viram (embora, obviamente, não tenham notado qualquer semelhança). Eu o encarava, ele me encarava de volta. "Esse cara não me é estranho!", pensava. Mas achava que provavelmente era porque ele se parecia com o Marinaldo.

Fiquei tão impressionada com a semelhança que um colega até se dispôs a "posar" para uma foto em que o dito-cujo aparecesse ao fundo. Eu precisava mostrar aquilo para minha tia e minha prima, respectivamente viúva e filha do Marinaldo! Pelo menos, para ter certeza de que a tal semelhança existia mesmo, não era coisa da minha cabeça. E não era, porque elas também ficaram boquiabertas.

Acontece que passei a esbarrar com o Sósia vez ou outra no McCafé e a coisa perdeu um pouco a graça por um tempo... Até o dia em que o vi nas proximidades da minha casa, meses depois, caminhando com sacolas de supermercado em plena Conde de Bonfim. Isso, confesso, me deu um certo medo. Como assim, o Sósia do Marinaldo era meu vizinho? Será que eu o conhecia dali, afinal? Fiquei realmente confusa.

Passei um bom tempo sem vê-lo... Tanto que já até havia esquecido essa história. Nem sinal dele no McCafé nem nas ruas da Tijuca. Nada. Foi num domingo à noite, quando fui com minha amiga Juliana visitar o Cotidiano, bar que abriu onde antes outrora funcionava o Gratidão, um pé-imundíssimo que costumava frequentar com Clauber e afins.

Pertinho de casa, na esquina da rua em que mora meu amigo Felipe. E, como sempre que ia ao Gratidão tentava convencê-lo a vir me encontrar (coisa que ele NUNCA fez, diga-se de passagem), resolvi manter a tradição e chamá-lo para vir à versão limpíssima que se instalou no lugar. Obviamente, ele não veio, alegou estar já na cama, numa ressaca monumental.

Talvez porque eu tenha respondido debochadamente, desdenhando de sua enxaqueca alcóolica, Felipe pediu aos pais, que iam descer para passear com o cachorro, para falar comigo no bar. Pois bem, fui abordada pela mãe dele, sorri, disse que entendia, que estava só botando pilha no filho dela, que era um amigo desnaturado, ela concordou que era um absurdo ele NUNCA ter ido lá me encontrar... Nisso, vi o cachorro fofo deles e, pasmem, dei de cara com o Sósia. E, putz, ele era o pai do Felipe! Mas fiquei quieta. Por um instante, duvidei de meus olhos. E se não fosse ele o Sósia do McCafé?

Mandei um torpedo pro Felipe dizendo que precisava contar uma história bizarra envolvendo os pais dele, que era para ele me procurar... Aliás, nossa amizade é cheia de coinciências bizarras que não vêm ao caso agora... Depois de receber o torpedo, lógico que ele me prontamente me procurou no MSN. E contei tudo, mandei a foto que fiz no McCafé... Era realmente o pai dele. E, depois que ele viu umas fotos do Marinaldo, até ele ficou bolado.

Tá achando que isso tudo é exagero? Invenção minha? Pois, tire você suas próprias conclusões... Observe atentamente as fotos a seguir:

O Sósia (ou Álvaro) é o que aparece atrás da cara de bobo do Léo,
que gentilmente posou para a foto e, sem o qual, esta história não teria boa parte da graça.

O famoso Marinaldo Guimarães, meu falecido tio.

E aí? São ou não parecidos? :-)

domingo, 6 de março de 2011

Memórias de outros carnavais

Carnaval não é exatamente um momento fácil para mim. Nunca foi. Sempre me senti menos eufórica do que meus amigos. Lembro, quando criança, de pensar cuidadosamente na fantasia que eu usaria e, na hora h, eu me vestia para ficar em casa, muitas vezes sozinha. Soa deprê, né? Mas eu não ficava triste por isso. Às vezes, havia os bailes do Fluminense para ir, mas creio que era só isso mesmo. Fantasiar-me era algo quase burocrático.

Este período do ano tampouco me traz recordações de grandes viagens. Meus avós, tios, primos... Sempre foram ratos de praia e iam muito para a Região dos Lagos. Entretanto, em geral, quando acontecia de eu e meus pais viajarmos, íamos para o sítio, onde não havia carnaval propriamente dito. Mesmo assim eu me fantasiava, pelo que lembro. E nem sempre havia um propósito nisso. O pior era ficar trancada em casa, à noite, sem outras crianças, sendo obrigada a assistir aos desfiles das escolas na TV. Beirava a tortura, porque a casa que tínhamos na serra era pequena e eu não conseguia dormir com aquele barulho.

Namorei e casei com um homem que amava o carnaval, apesar de ser um sujeito absolutamente introspectivo. Sabia todas as letras de samba-enredo, lembrava dos desfiles de cada escola, citava as campeãs de cada ano e me obrigava a passear pela Presidente Vargas para ver as alegorias que entrariam na avenida. Em casa, fazia questão de ver todos os desfiles e teve como grande frustração nunca ter me convencido a acompanhá-lo ao Bola Preta. Era um mangueirense convicto e orgulhoso. Passei anos tentando digerir melhor o carnaval por causa dele.

Este é o meu primeiro carnaval sem o Flávio. Pensei cuidadosamente nas fantasias que pretendo usar. Ontem, fiz minha primeira incursão pelo carnaval carioca (ok, segunda, já que sou assídua frequentadora do Nem Muda Nem Sai de Cima, bloco tijucano a que sinto ter a obrigação moral de comparecer todo ano). Fui de gata, pantera, sei lá o que era aquilo. Choveu. Foi divertido pelas companhias que tive, mas não me senti fazendo parte daquilo. Fomos para a Lapa, mas lá também o carnaval me pareceu um pouco surreal. Resultado? Dormi o sábado inteiro, inclusive meio gripada. Atividades momescas? Nenhuma. Assisti a um DVD e fui ao cinema, sozinha.

Quem sabe amanhã, não é mesmo? Meus amigos em peso irão ao Boitatá. Acho que preciso seguir cada dia de uma vez. Se não chover tem mais chance... Talvez ver os shows gratuitos nos Arcos da Lapa seja uma opção mais realista. Vejamos.

E deixo, aqui, o melhor exemplo musical não-carnavalesco que encontrei para este sábado à noite:

RETALHOS DE CETIM
Benito di Paula

Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim,
Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.

domingo, 5 de setembro de 2010

Diálogo insólito no trajeto Carioca-Saens Peña

Sexta-feira, vivi uma situação insólita. A coisa aconteceu assim: estava eu, com fones de ouvido, de pé no vagão feminino. Ao chegarmos à Central, vagou um lugar e sentei. Peguei o livro que estou lendo e tentei me concentrar na leitura, que não é nada fácil. [Estou apanhando para entender o inglês de The sound and the fury, do William Faulkner, que encontrei na minha estante. Achei que estava há muito sem praticar o idioma e que este seria um bom treino.]

 Considerada a obra-prima de Faulkner,
deve ser difícil em qualquer língua... Mas agora fiquei curiosa!

Pois bem, estava absorta na leitura. Ao chegarmos à Afonso Pena, a pessoa que estava ao meu lado levantou e eu aproveitei para escorregar para a janela. Afinal, sempre pode haver alguém cansado, disposto a sentar-se por duas estações, certo? E havia. Assim que cheguei para o canto, alguém correu para sentar e o trem seguiu viagem. Logo senti um cutucão no braço. Virei-me para ver o que era e percebi que a mulher ao lado falava algo que eu não escutava por conta dos fones. Educadamente, tirei o fone, pensando que devia ser algo importante, afinal, ninguém interrompe a leitura de um desconhecido no metrô, não? Ainda mais se a pessoa está com fones no ouvido, sinal claro de que não está disponível para conversa... 

Ledo engano. Segue o diálogo insólito:

— Você faz inglês?

Ainda confusa, respondi:

— Não... Como assim?

— Você está lendo em inglês, né?

— Sim – disse, pensando que deveria ter respondido que não, aquilo ali era russo.

— Você sabe inglês? – ela perguntou.

— Sei – respondi educadamente, pensando que bem que poderia ter dito que não, que estava com aquele livro aberto apenas para "tirar onda" no metrô.

— Você aprendeu sozinha? – eu juro que quase tive um treco quando percebi o rumo que a conversa ia tomando, mas me contive.

— Não, eu fiz curso, mas já faz muito tempo – respirei fundo.

— Foi difícil? – really, ela interrompeu minha leitura para fazer este interrogatório?

— Bem, foram sete anos na Cultura Inglesa. Fácil, não foi – aí, eu já estava conformada e até achando divertido, pensando que finalmente teria algo para contar aqui no blog e, por isso, emendei:

— Espanhol é mais fácil.

Ela pegou a isca:

— Espanhol se aprende no susto, né?

— Não é bem assim, espanhol engana. Acho que é mais fácil para nós, brasileiros, apenas porque compartilhamos muito vocabulário e muitas das estruturas gramaticais, mas isso às vezes até atrapalha.

— Ah, eu tive uma professora de espanhol fantástica (ela era realmente fantástica!) que dizia que, se a gente chegasse lá [imagino que na Espanha ou em algum outro país de fala hispânica, ela não foi clara] sem saber falar direito a língua, eles tentavam ajudar como aqui.

Eu não resisti e ri. Imaginei um espanhol ou argentino, em geral famosos pela impaciência, tentando entender um turista perdido que acha que fala espanhol. Respondi:

— Aí, depende de quem você encontrar pela frente... Nem todos têm essa boa vontade. Só no Brasil mesmo – e eu era a prova viva disso, já que havia enveredado por aquela conversa por não saber cortá-la – as pessoas estão sempre dispostas a dar tanta informação.

— É verdade, né? No Brasil, a gente sempre tenta ajudar...

Ri, de novo, já me preparando para pôr novamente o fone no ouvido, mas ela ainda atacou:

— Mas a língua mais difícil do mundo é o português, né?

— Não, a mais difícil é aquela que a gente não consegue aprender – eu detesto ouvir isso, acho uma grande bobagem, já que todo nativo (exceto, talvez os que tenham pendores gramaticais) de qualquer idioma costuma ter a sensação de que não domina completamente sua própria língua e, no entanto, comunica-se perfeitamente por meio dela.

— É verdade... E ainda tem quem fale várias línguas, né?

Balancei a cabeça afirmativamente e sorri. De novo, achei que conseguiria pelo menos voltar a ouvir música, mas ela não me largou: 

— Você é professora?

Aí, me resignei de verdade... Marquei a página do livro, desliguei o ipod e torci para chegarmos logo à Saens Peña, embora com algum receio de que ela me seguisse. Respondi, secamente:

— Não – imaginem se respondo que já fui, e de português, literatura e redação?

— O que você faz?

— Sou jornalista.

Noto um breve assombro, uma pausa, quase uma veneração:

— Ah! E quantas línguas você precisa saber para ser jornalista?

Preciso? Como assim preciso? Acho que devia responder que preciso saber mesmo é português, mas entendo que é uma batalha perdida... E, com isso, digo apenas:

— Ah, quanto mais melhor...

— Quantas você sabe?

— Estrangeiras? Inglês e espanhol – e, nisso, o trem chegou na estação, levantamos, dei tchau e saí pelo lado oposto ao que ela ia, mas sempre olhando para trás, apavorada pela ideia de que talvez ela pudesse me perguntar mais alguma coisa.

Antes que me perguntem (como já o fizeram), não, ela não era velha. Não era muito jovem, mas talvez não tivesse nem 50 anos. E, sim, tinha cara de maluca. Eu mereço. Penso que talvez tenha sido mais salutar (para mim) dar trela, bater palmas para ela dançar. Afinal, vai que ela se irritava comigo, sei lá.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Feriadão de Natal - 1ª parte

Sobrevivi a mais um Natal. Este ano não foi possível reunir todo mundo num lugar só, como seria o ideal. Não quis fazer a ceia novamente em minha casa, porque as cachorras destruíram meu jardim e a casa está precisando pintar. Fica para o ano que vem, com alguma sorte... Gostaria que minha mãe tivesse feito as vezes de anfitriã, mas não rolou. Resultado: passadinha rápida na casa da minha prima Aninha, em Laranjeiras, Metrô até a nova estação de Ipanema e ceia na casa da minha tia Acácia, com a família do meu pai. Almoço na casa da minha mãe no dia seguinte. Flávio desistiu de ver os pais e o irmão em Magé. No mais, gostei dos meus presentes, com destaque para o brinco verde que minha tia Miriam fez, a bolsa de estampa de gato com bolinhas que minha tia Acácia deu e o livro Caim (José Saramago), presente do meu tio Carlos.

Mais um livro presumivelmente iconoclasta
de Saramago que mal posso esperar para ler

O melhor mesmo deste Natal, porém, foi o fim de semana que o seguiu, tornando-o um feriadão. Fazer as unhas e sair para ver o comércio num dia de semana à tarde não tem preço - ok, teria sido melhor se fosse um dia comum, não tão quente, com comércio aberto no horário normal, sem tanta gente desesperada fazendo compras de última hora - e isso não é propaganda de cartão de crédito.

Foi bacana ler na rede com as cachorras ao lado (nem sempre exatamente ao lado, já que elas tentaram subir na rede inúmeras vezes), ir ao cinema, beber com amigos no Da Gema (especialmente com a Jaque, que raramente aparece por estas bandas e ainda não conhecia o bar, seu maravilhoso pastel de feijão gordo e suas cervejas estupidamente geladas), depois do cinema. Foi um fim de semana para botar algumas coisas em dia. Dividi-o em dois posts, porque achei que o texto ficaria longo demais. Parto da seguinte premissa: se nem eu tiver muita paciência para ler, é porque o texto precisa ser cortado.

Li Nove noites - o livro que ganhei de amigo oculto da Julie, lembram? - de uma levada só, afinal era fininho e a narrativa fluiu bem. Confesso, porém, que o fiz com o maior dos cuidados, para trocá-lo na Saraiva. Por mais que tenha sido uma leitura agradável, não era um livro que eu fizesse questão de manter na estante e já que podia trocá-lo, por que não? Na verdade, fiquei um pouco decepcionada com o final, que me pareceu um tanto batido. E achei o enredo um pouco confuso, embora não seja nada que comprometa a leitura. Gostei, só não achei genial. Esse lance pós-modernista que mistura realidade e ficção é algo que me agrada, mas ainda prefiro ler Saramago (daí ter ficado felicíssima com o presente do meu tio) ou mesmo Em liberdade, do Silviano Santiago, que dá continuidade às Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos.

O ruim da Saraiva é que a gente chega lá para trocar o livro e acaba saindo com, pelo menos, dois. Foi o que aconteceu comigo dessa vez. Encarei o temporal que caía no fim do expediente, o Metrô caótico (um vagão a menos e sem ar é muita sacanagem!) e rumei para o Shopping Tijuca. Eu já sabia que acabaria desembolsando algum, mas exagerei. Não consegui me decidir entre o último romance do Rubem Fonseca (O seminarista), embora prefira seus contos, e o penúltimo do Saramago, que eu ainda não tinha: A viagem do elefante.

O do Rubem Fonseca eu já comecei a ler na fila mesmo, enquanto esperava para pagar, mas acho que não vou retomá-lo já, não. Quero terminar A alma encantadora das ruas, coletânea de crônicas de João do Rio. Divirto-me muitíssimo com cada crônica, porém é uma leitura que tenho tido dificuldade em engrenar. Culpa do Metrô, que anda caótico! E do sono que venho sentindo pela manhã no 413...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Juiz de Fora afora*

A pedidos, quero aqui relatar - embora com bastante atraso e de maneira breve - o passeio que fiz a Juiz de Fora (MG) no feriadinho de Finados. Quis aproveitar a estadia da Fárida na cidade, pessoa querida com quem estudei na Facha e que havia decidido morar uns tempos com sua mãe. E ainda bem que fui, porque ela já até voltou a morar no Rio... Serviu para eu, pelo menos, conhecer mais um cantinho do mundo, ainda que perto de casa. Para quem não sabe, para chegar a Juiz de Fora, basta pegar a BR-040 até o fim. A estrada não é ruim, mas a viagem tem um ônus... Aliás, três: são três pedágios bem carinhos. Mas vale a pena, principalmente se você puder esticar o passeio para outras cidades mineiras, como Ibitipoca, com suas cachoeiras. Não foi o meu caso. Quem sabe numa próxima vez?

Cheguei lá no sábado, dia 31 de outubro, já na hora do almoço. Comemos num bom restaurante a quilo e partimos a pé para conhecer o centro da cidade. Comprei uma saia social e algumas roupas de ginástica no Santa Cruz Shopping. Pena que era véspera de feriado e várias lojas estavam fechadas, mas só esse lugar já valeria uma ida a Juiz de Fora. São inúmeras lojas de confecção própria, com roupas bacanas a preços muito em conta. Além disso, comemos doces da Fábrica de Doces Brasil. Não experimentei o famoso chapéu de napoleão (que a Fárida ama), nem vi nenhuma josefina (nosso casadinho ou xuxa-pelé), mas comi uma boa bomba de chocolate (embora feia, sem a cobertura)... Antes de voltar, passamos no museu Murilo Mendes e lemos alguns poemas concretos pelas paredes. Achamos meio pobrinho, mas interessante. À noite, fomos a um lugar que a Fárida não conhecia, mas sobre o qual eu havia lido a respeito em algum site: a Cervejaria Barbante, que fabrica sua própria cerveja. Adorei o lugar e a cerveja (que não deixa gosto de barbante na boca, apesar do nome... Embora só tenha tomado um golinho, pois estava dirigindo).

Eu e Faridinha (que estava bebendo Coca-Cola, juro!)
na Cervejaria Barbante

Aqui o rótulo que não me deixa mentir

No domingo, 1º novembro, dia de todos os santos, fomos passear no parque Mariano Procópio. Uma graça. Pena que não deu para visitar o museu, porque está em reforma. E pena também que meu digníssimo marido não comprou pilhas novas para a máquina e, graças a isso, temos pouquíssimas fotos de nosso fim de semana mineiro. De lá, fomos ao Cristo (sim, lá há um cristo!), no Morro do Imperador, almoçamos num lugar que vende doces - chamado Salva-Terra, onde a Fárida se encantou com um tucano que voava livremente - e tomamos uns maravilhosos-divinos-extraordinários sorvetes artesanais numa sorveteria chamada Bom Clima. Depois, tomei um café com morango (lindo e perfeito) e um doce delicioso numa cafeteria que, se não me engano, chama-se Café com Morango (dã!). À noite, fomos a um bar chamado Mercearia, de esquina, com uns armários antigos lindíssimos. Interessante, mas o padrão dos bares dali lembra um pouco o que virou a Lapa carioca, hoje. Com o que há de bom e de ruim. Tem até flanelinha!


De lentes transitions lá no alto do cristo juiz-forano

E, então, o feriado chegou... Pegamos a estrada tão logo acordamos, porque haveria um almoço de família na casa dos meus pais. Confesso que quase desviei do caminho, quando passei pela entrada para o meu Jardim Araras. O cheiro do cedro me deu uma vontade de visitar o sítio, molengar de frente para pedra Maria Comprida, tirar um cochilo na rede, na varanda... Mas eu não havia levado a chave, e sem o Zé por lá o sítio não é mais o mesmo. Resisti bravamente e cheguei bem na hora do almoço. Mas não vejo a hora de dar um pulinho no sítio.

* Infame, mas não resisti...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Perdão, sumi de novo

Ando meio sem vontade de escrever no blog. Não é falta de assunto, porque estes estão por aí, em toda parte. Basta um pouquinho de disposição e pronto: escreve-se. Às vezes, um tema sem muita importância pode virar um texto bacana. É possível, sim, tirar leite de pedra. Mas não é por isso que não tenho escrito aqui...

O problema maior é que os assuntos sobre os quais tenho pensado ultimamente não são muito publicáveis, são coisas que não pretendo divulgar, debater abertamente: são pessoais. Bem, meu blog é estritamente pessoal, já que só falo sobre o que me interessa e ponto final. Entretanto, justamente por isso, faço uma pré-seleção do que desejo ou não tornar público e notório. Por conta disso, aliás, já deixei de comentar um monte de coisas. Inclusive, porque, há coisas que só fazem sentido se escritas no timing certinho. Se passou aquele momento exato, já era. Melhor calar.

Bem, tudo isso é apenas para dizer que ainda estou por aqui, sim. O blog está ativo, embora eu não esteja tanto assim... Estou ligeiramente fechada para balanço, repensando escolhas e caminhos. Sinto que estou vivendo um momento crucial, daqueles em que é preciso tomar uma posição. E eu não quero me deixar apenas "levar pela maré". Quero decidir. E, com isso, me lembro do verso de Fernando Pessoa: "Navegar é preciso, viver não é preciso".

Todos os dias me deparo com esta Nau Capitânia,
atualmente em exposição no Espaço Cultural da Marinha (RJ)
Aos interessados: de terça a domingo, das 12h às 17h - É de graça!

Para quem não conhece, segue o poema:

Navegar é Preciso
(Fernando Pessoa)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Aproveitando a deixa, segue a letra da música Os Argonautas, de Caetano Veloso, que dialoga com o poema acima:

Os Argonautas
(Caetano Veloso)

O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)

O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso...(6x)

E, para concluir... Não podia ficar de fora:

Timoneiro
(Paulinho da Viola)


Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Rio de Samba e de Chuva

Estou de férias. Depois de uma semana inteirinha em Fortaleza, volto ao meu Rio de Janeiro chuvoso e repleto de rodas de samba. A primeira delas rolou na tarde de sábado, aqui pertinho de casa, no Casarão da Garibaldi (vulgo Centro Municipal de Referência da Música Carioca), e marcava o encerramento das atividades do espaço. Tudo muito bacana, apesar dos mosquitos que me dilaceraram as pernas... E não estou exagerando! Minhas pernas continuam inchadas.

Pois bem, o sábado prometia ser ainda mais sambístico. Tivemos notícia de que nosso amigo Beto Caratori estava se apresentando no botequim VacaBrava, aqui mesmo na Tijuca. Infelizmente, ao chegarmos lá – eu, Flávio e meu pai –, encontramos um atendimento confuso e todas as mesas reservadas para não sei quantas comemorações de aniversário. Depois de muita negociação, conseguimos uma mesa, mas só lá no fundão. Segundo o gerente(?) que nos atendeu, não seria possível colocar nossa mesa mais à frente pois o espaço seria destinado à dança. Não sei, mas me pareceu haver uma certa má vontade mesmo... Uma pena, mas não valeria a pena pagar R$ 12 de couvert para não ver nada. De qualquer maneira, penso que a iniciativa é bacana e o que eu mais desejo é que a Lapa se espalhe até a Tijuca! Sim, porque aquilo ali é bem a cara da Lapa. No que há de bom e de ruim, na estética e no preço. Ainda assim, que venha.

O domingo, por sua vez, foi também movimentado. Depois de um churrasquinho em família que durou praticamente o dia inteiro, partimos para Santa Teresa com o intuito de prestigiar o aniversário de nossa amiga Eugênia. Levei meus primos Germana e Guilherme (este diretamente de Barcelona) com seus respectivos pares – Hernán e Adriana – e o bebê mais animado que já vi, meu priminho Moreno (filho do Gui e da Adriana). Mais uma roda de samba genial, num lugar super aconchegante, a varanda do Terra Brasilis (albergue em frente ao Parque das Ruínas). A lamentar mesmo só o cinza do céu, que não deixava a gente curtir a vista direito. No mais, tudo perfeito.

Pensam que acabou? O melhor guardei para o final: o Angu do Gomes está de volta. Isso mesmo! E com ele, provavelmente, a CASCA (Confraria dos Amigos do Samba, Choro e Angu). O Vô Basílio (antigo dono e avô do Rigo, que agora comanda a casa) estava lá, radiante, curtindo cada segundo da (re)inauguração, que foi fantástica. Para início de conversa, quem cortou a fita inaugural foi a Vó Maria. O lugar estava cheio, com mesinhas que se espalhavam pela rua aproveitando a trégua dada pela chuva. O chopp, a coca-cola e o angu (delicioso!) eram liberados e foram servidos ao som de samba e choro. A roda era composta por Patrick (7 cordas), Abel (cavaco), Luciano (bandolim), Silvia (trompete e escaleta), Pedro e Ronaldo (revezando-se no pandeiro). E ainda teve o choro pintado do De Paula, a performance do Gularte (o dito pelo não dito) e as canjas de: Beto Caratori, Gabriel Cavalcante, Vó Maria (obviamente) e do meu primo,
Guilherme Guimarães. Putz, muito bom mesmo! Esse é um lugar que realmente vale a pena conhecer, principalmente pela localização: o largo de São Franciso da Prainha. Que tenha vida longa!

A caminho do Angu do Gomes (ao fundo)

Pois é... E minhas férias ainda não acabaram. Pensei que a primeira coisa sobre a qual escreveria aqui seria Fortaleza, mas fui brindada com uma avalanche de coisas tão legais ao desembarcar no Rio que nem deu tempo. Então, vejamos o que ainda vem por aí!
Só tomara que eu agüente o tranco... Enquanto isso, cantemos:

O SAMBA NÃO PODE PARAR
(Dilce Coutinho, Fabrício do Império, Paulo George)

A chuva tá caindo
Mas o samba não pode parar,
Não! Não!
Não pode parar, não, não
Não pode parar

Esta chuva miúda
Para o sambista é uma coisa à toa
Chuva miúda no samba, malandro, é garoa

Esta chuva é sereno
Que não molha mais ninguém
Cada pingo que cai
É mais um sambista que vem

Mas o samba não pode parar
Não, não, não pode parar



A CHUVA CAI
(Argemiro - Casquinha)

A chuva cai lá fora
Você vai se molhar
Já lhe pedi, não vá embora
Espere o tempo melhorar
Até a própria natureza,
Está pedindo pra você ficar

Atenda o apelo desse alguém que lhe adora
Espere um pouco
Não vá agora
Você ficando vai fazer feliz um coração
Que está cansado de sofrer desilusão

Espero que a natureza
Faça você mudar de opinião

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Se continuar assim, o Rio vai virar mar...

Ontem, lembrei de Moreira da Silva, que tinha em seu repertório uma música chamada Cidade Lagoa, cuja letra diz o seguinte:

"Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó
Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró
Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí
Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha ao Catumbi
(...)"

O temporal, que durou cerca de 40 minutos, trouxe os já conhecidos engarrafamentos, desabamentos e afins. A volta pra casa foi, como sempre acontece nesses casos, complicada. A pé, enchente. De carro ou ônibus, trânsito caótico. Metrô e trem? Filas intermináveis e a chance de virar sardinha em lata.

Cheguei ao metrô da Cinelândia acompanhada pelo Marcelo Vital – colega de trabalho e também tijucano – e vi que a fila já subia as escadas. Decidimos, então, fazer uma hora pra ver se a coisa acalmava. Tomamos um suco de manga e, às 20h, tentamos de novo. Dessa vez, a fila não subia pelas escadas, mas fazia um enorme caracol. Difícil de achar o fim, desanimador.

Resolvemos caminhar até a Lapa para, de lá, ver que rumo tomar. Logo no princípio, quase desistimos por conta das pessoas que atravessavam a rua no sentido contrário, com sacos plásticos nos pés. Entretanto, a água já havia baixado e chegamos a pensar que por ali não havia caos algum. Ledo engano. Mem de Sá: engarrafada a perder de vista.

Os ônibus, enfileirados, pareciam estar meramente estacionados. Pelas calçadas, vazias, fomos pulando as poças até a praça da Cruz Vermelha. Lá, um gigantesco nó impedia o fluxo de seguir adiante, tanto que, dali em diante, não havia trânsito. Nem ônibus, portanto. Lembro que cheguei a comentar que parecia uma cena do filme Ensaio sobre a cegueira... Pessoas andando a esmo, tentando encontrar o caminho de casa... A única diferença é que todos enxergavam, acho.

Seguimos até o Sambódromo. Escuridão, poças maiores, sujeira, Salvador de Sá praticamente deserta. Chegamos ao Estácio. Metrô? Não, agora era melhor passar a Paulo de Frontin... E fomos. Por sorte, não havia mais enchente. Na estação seguinte, na praça Afonso Pena, peguei um 415 até em casa. Vital, que mora nas proximidades do Maracanã, ainda seguiu a pé o resto do caminho. Enfim...

17 de novembro de 2008, o dia em que caminhei do Centro à Tijuca.


Lá como cá? Vários guarda-chuvas quebrados, jogados em latas de
lixo de Bremen (Alemanha), após tempestade que atingiu o
país em 18 de janeiro de 2007, deixando pelo menos 10 mortos.
(AP Photo/Joerg Sarbach)


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu leio, sim... e adoro!

Gosto de ler enquanto caminho. Pronto, falei. Podem me chamar de maluca, mas eu não leio apenas no ônibus e no metrô, nem tampouco me limito aos bancos das praças e afins ou deixo para ler no banheiro (ok, no chuveiro é mais difícil, mas adoro as embalagens de shampoo) ou na cama, antes de dormir. Há fases – como a que vivo agora, em que emendo um livro no outro – que me fazem ler o tempo inteiro, mesmo quando estou andando. E sei que não estou só!

Essa imagem, aliás, "roubei" do blog de um semelhante leitor-caminhante


Quando falo “o tempo inteiro”, refiro-me ao meu horário livre, bem entendido... Se bem que, ora, sou revisora de textos. Portanto, meu ofício é ler, ainda que a leitura nesse caso nem sempre seja agradável. Então, acho que só não leio – ainda! – enquanto durmo. Na verdade, não lembro bem dos meus sonhos... Ou seja...

Enfim, o que eu quero dizer com essa lengalenga toda é que ando fascinada com a possibilidade de baixar livros inteirinhos pela internet. É verdade que prefiro comprá-los, adoro uma capa bonita, gosto do cheiro do papel novo, mas há livros que a gente não encontra à venda em qualquer esquina. Como se, aliás, houvesse uma livraria a cada esquina no Rio de Janeiro... Se até pra achar bons botecos – o que se dizia ser algo tipicamente carioca – já está ficando difícil!

Pois bem, o fato é que, por mais que eu ame a literatura nacional, ando interessada em ler apenas livros escritos em espanhol (culpa do DELE!). E isso deveria ser simples (e barato), não!? Mas não é. Sendo assim, resta-me apelar para os downloads e fechar os olhos para as questões de direito autoral: imprimo duas páginas por folha, frente e verso, e está pronto meu livrinho. Fica até mais fácil para ler sem neuras por aí, pois pode amassar e sujar à vontade.

Minhas mais recentes aquisições foram: La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares (citado no post anterior), e El Aleph, de Jorge Luis Borges. Ambas maravilhosas. Recomendo.


PS: A quem quiser aprender a caminhar enquanto lê, recomendo a leitura (olha ela aí de novo!) do manual How to Read While Walking.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Hoje de manhã, no 413...

Tenho o costume de ler no ônibus e/ou no metrô, a caminho ou na volta do trabalho. Embora prefira o segundo, devido à sua crescente superlotação, venho me especializando em ler ao sabor dos solavancos do primeiro. Viajo prestando atenção aos que lêem à minha volta, em busca talvez de cumplicidade. Infelizmente, porém, esta é geralmente parcial e chega a ser mesmo frustrante, porque as pessoas perdem muito tempo lendo porcaria: best-sellers, auto-ajuda e afins.

Minha nada confortável sala de leitura de todas as manhãs

Por isso, hoje, enquanto lia La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares, que imprimi da internet (e é uma obra-prima!), olhei de rabo de olho para o livro que o senhor ao meu lado puxava de uma bolsa. Fiquei surpresa ao ver em suas mãos A audácia dessa mulher, escrito por Ana Maria Machado, autora da qual gosto muito. Quando criança, lia seus livros infanto-juvenis e, há alguns anos, descobri seus romances adultos. Entre eles, sinto um carinho especial por esse livro que conta a história da Capitu, prato cheio para qualquer amante da literatura de Machado de Assis. Como eu que, aliás, fui fazer Letras na (vã) esperança de aprofundar-me ainda mais em sua obra.

Justamente quando estava sem saber se continuava a ler o meu Casares ou se entabulava conversa com meu companheiro de viagem, um sujeito começa a pedir aos passageiros para que lhe déssemos algum trocado, pois estava doente, precisava de remédios e toda aquela ladainha de sempre... Seria apenas mais um, mas o problema era que o fulano era meio fanho e, para que a voz chegasse a todos, ele tinha que realmente gritar - E como berrava! -, o que tornava a coisa ainda mais desagradável e difícil de entender.

Olhei para o senhor, tranqüilo, que sorriu para mim e me apontou seu aparelho de surdez, fazendo sinal de que o havia desligado. Sorri de volta e pensei: “Que sorte!” Só quando o silêncio voltou a reinar, o senhor religou seu aparelhinho mágico e entabulamos uma conversa divertida sobre Machado... até que ele desceu no ponto em frente ao Calouste, e eu voltei pro Morel. Tomara que ele goste do livro tanto quanto eu, já que confessou não ser sua literatura preferida, e que eu lembre todos os contos machadianos que ele citou, para que possa buscá-los em casa ou na internet. Afinal, é sempre bom ler (ou reler) o que vale a pena ser lido.

Pena que não encontramos pessoas assim todos os dias.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tijuca, sim

Olha, eu sei que a Tijuca é um bairro violento, que não podemos fechar os olhos para as mazelas que nos cercam, que o trânsito é de lascar, que os camelôs fazem a maior bagunça na General Roca... Sei também que existem buracos da Cedae e da CEG pelas ruas... Enfim, sei de tudo isso. Estou cansada de saber, na verdade. E, embora eu ache que é preciso falar sobre o assunto – para extravasar e, principalmente, para tentar resolvê-lo –, quero deixar registrado aqui que eu não agüento mais ler e ouvir sempre as mesmas opiniões a respeito.

Até parece que não acontecem outras coisas pelo bairro! Boas, inclusive. Quando aparecem nos jornais têm sempre um tom de release... Desculpem, mas essa é a impressão que tenho. Parece que nem se dão ao trabalho de apurar a notícia, publicam qualquer coisa... Poxa! Sei que dá trabalho e que a culpa nem sempre é do jornalista, mas será que é tão difícil assim mudar o foco!? Gostaria que falassem da cultura, dos costumes, de qualquer coisa que ajudasse o tijucano a recuperar um pouco do seu orgulho... Cito aqui alguns exemplos bacanas:

1) Praça Saens Peña. O filme, com roteiro e direção de Vinícius Reis, conta a história de uma típica família tijucana, que vive num apartamento no coração da praça Saens Peña. Paulo (Chico Diaz) é professor de literatura do colégio São José, Teresa (Maria Padilha) trabalha numa lanchonete ali no Shopping 45 e a filha deles, Bel (Isabela Meireles), está para fazer vestibular e passa o tempo livre na praia da Barra. Uma proposta de trabalho oferecida a Paulo gera várias crises e põe em risco um casamento de 20 anos. O elenco é formado, ainda, por nomes como Gustavo Falcão, Guti Fraga, Maurício Gonçalves e Aldir Blanc. Tempo de Menino, composta por Pedro Luís, é o tema musical.

Paulo, Teresa e Bel: uma típica família tijucana

Tive o privilégio de assistir à primeira exibição de Praça Saens Peña no Festival do Rio 2008, às 22h30 do último domingo. É realmente muito bom. Sua fidelidade ao bairro é tanta que, apesar de se tratar de uma ficção, chega a parecer um documentário. Estão lá o que há de bom e o que há de ruim em se morar na Tijuca. Infelizmente, o Festival está chegando ao fim, e o filme foi programado para apenas três sessões. Para quem não conseguiu assistir, um alento: Praça Saens Peña deve entrar em circuito comercial no 1º semestre de 2009, às vésperas de a Tijuca completar 250 anos. Esperemos.

2) Buteco do Edu. Eduardo Goldenberg é polêmico, do tipo que as pessoas amam ou odeiam. Encaixo-me no primeiro grupo, depois de já ter trocado vários e-mails desaforados com ele. Entendo, por isso, os que se encontram no segundo grupo. Mas o fato, realmente, é que o sujeito é brilhante e escreve muito bem. Nunca vi alguém tão apaixonado pela Tijuca, e embora pense que isso, muitas vezes, beire a insanidade, recomendo a todos a leitura de seu blog. Seus roteiros – turísticos(?) – tijucanos são uma leitura deliciosa e acho lamentável que fiquem restritos a tão poucos leitores. Vejam por si mesmos se tenho razão ou não.