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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Hoje de manhã, no 413...

Tenho o costume de ler no ônibus e/ou no metrô, a caminho ou na volta do trabalho. Embora prefira o segundo, devido à sua crescente superlotação, venho me especializando em ler ao sabor dos solavancos do primeiro. Viajo prestando atenção aos que lêem à minha volta, em busca talvez de cumplicidade. Infelizmente, porém, esta é geralmente parcial e chega a ser mesmo frustrante, porque as pessoas perdem muito tempo lendo porcaria: best-sellers, auto-ajuda e afins.

Minha nada confortável sala de leitura de todas as manhãs

Por isso, hoje, enquanto lia La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares, que imprimi da internet (e é uma obra-prima!), olhei de rabo de olho para o livro que o senhor ao meu lado puxava de uma bolsa. Fiquei surpresa ao ver em suas mãos A audácia dessa mulher, escrito por Ana Maria Machado, autora da qual gosto muito. Quando criança, lia seus livros infanto-juvenis e, há alguns anos, descobri seus romances adultos. Entre eles, sinto um carinho especial por esse livro que conta a história da Capitu, prato cheio para qualquer amante da literatura de Machado de Assis. Como eu que, aliás, fui fazer Letras na (vã) esperança de aprofundar-me ainda mais em sua obra.

Justamente quando estava sem saber se continuava a ler o meu Casares ou se entabulava conversa com meu companheiro de viagem, um sujeito começa a pedir aos passageiros para que lhe déssemos algum trocado, pois estava doente, precisava de remédios e toda aquela ladainha de sempre... Seria apenas mais um, mas o problema era que o fulano era meio fanho e, para que a voz chegasse a todos, ele tinha que realmente gritar - E como berrava! -, o que tornava a coisa ainda mais desagradável e difícil de entender.

Olhei para o senhor, tranqüilo, que sorriu para mim e me apontou seu aparelho de surdez, fazendo sinal de que o havia desligado. Sorri de volta e pensei: “Que sorte!” Só quando o silêncio voltou a reinar, o senhor religou seu aparelhinho mágico e entabulamos uma conversa divertida sobre Machado... até que ele desceu no ponto em frente ao Calouste, e eu voltei pro Morel. Tomara que ele goste do livro tanto quanto eu, já que confessou não ser sua literatura preferida, e que eu lembre todos os contos machadianos que ele citou, para que possa buscá-los em casa ou na internet. Afinal, é sempre bom ler (ou reler) o que vale a pena ser lido.

Pena que não encontramos pessoas assim todos os dias.

2 comentários:

Beatriz Fontes disse...

A quem interessar possa: os dois contos de Machado de Assis que me foram recomendados pelo tal senhor chamam-se Missa do Galo e Um cão de lata no rabo.

Ambos disponíveis para download, sem crise de consciência, uma vez que já caíram em domínio público.

Julie Carvalho disse...

Também leio no metrô (no ônibus não, fico enjoada), também gosto de Machado, dos escritores do Boom e da Ana Maria Machado. Mas, depois de ler o post, senti um certo alívio... Não sou a única que atrai velhinhos nos ônibus. Pena que nem todos sejam assim tão interessantes, mas, nessas conversas de ônibus, já conheci um professor de geologia aposentado e uma senhorinha fundadora do bloco Badalo, avó de não-lembro-quem do grupo Galocantô. Papos interessantes.