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segunda-feira, 30 de julho de 2012

A vizinha, o coelho e a pipoca

Não moro em prédio. E acho super estranho o costume que as pessoas têm de cumprimentarem desconhecidos nos elevadores, nas filas, nos pontos de ônibus. Sou péssima nessa história de desejar “bom dia” para estranhos, mas sigo tentando, embora confesse que, na maior parte das vezes, meu cumprimento deva soar ininteligível, um mero grunhido. Afinal, para piorar tudo, sou tímida e sinto uma quase inveja dos despudorados que saem por aí desejando bons dias, boas tardes e boas noites a quem quer que seja. Bem, tudo isso é para tentar justificar o que muitos entendem como falta de educação.

Já melhorei bastante. Hoje, sou capaz de responder claramente ao cumprimento recebido. Se me desejam bom dia, desejo de volta. E, no trabalho, eu já falo com os ascensoristas com alguma tranquilidade... Bem, depois de mais de dois anos de trabalho, não posso considerá-los desconhecidos (mas estranhos eles são, sério!). Dou bom dia, sorrio e torço (se fosse religiosa, rezava) para não puxarem assunto comigo. É que ainda acho as conversas de elevador super constrangedoras...

Por conta desta minha tentativa de aprimorar minhas práticas sociais, há alguns anos, passei a cumprimentar uma vizinha que sempre via quando estava a caminho do ponto de ônibus. Isso fez com que, em algum momento, ela se sentisse à vontade para puxar conversa, obviamente. O pior é que, desde que a vi pela primeira vez, achei-a esquisita, com cara de maluca mesmo. A filha dela, então, me parecia um monstrinho... E o marido, ah!, esse até hoje me assusta... Psicopata define. Dos três é quem mais vejo, passeando com os cachorros, mas ele não fala comigo (yeah!).

Então, ela se apresentou (e eu não lembro o nome dela, nem de nada do que ela falou sobre si) e me perguntou uma série de coisas... Estar com ela, embora por breves momentos, sempre suscita interrogatórios ou diálogos bizarros. Como no dia em que ela me perguntou sobre meu marido e quase me abraçou quando contei que ele havia morrido. Eu nem sabia que ela sabia que eu era casada! Foi um dos momentos em que mais tive medo, sinceramente. Imagina se ela me abraça? Ai... Terror, pânico, desespero!

Teve uma noite dessas em que eu estava em casa sozinha, acho que chovia (não sei se realmente chovia ou se apenas a chuva me parece apropriada para a situação), já era razoavelmente tarde... E tocou a campainha. Não esperava ninguém e atendi meio desconfiada. Talvez fosse o vigia para me avisar que a gata estava presa em algum lugar... A rua estava escura, não dava para ver direito quem estava no portão. Então, ela falou:

 Beatriz, sou eu! Fulana! (ela falou o nome, mas eu realmente não lembro...)

Enquanto eu tentava me recobrar do susto, ela continuou:

 Será que você não quer um coelho? Olha que bonitinho (apontando para uma bola de pelo de aspecto indecifrável)... É que eu ganhei e não vou poder ficar! Lembrei de você, porque sei que você gosta de bicho...

Claro que eu disse que não, expliquei que as cachorras comeriam o coelho, mas estava tão espantada que mal conseguia falar. Fiquei com medo de que ela deixasse o tal coelho na caixa de correio ou algo assim... Mas ela entendeu e se foi, decepcionada.

Depois disso, fiquei um tempo sem vê-la. Até porque mudei de ponto de ônibus e quase não passo na porta da casa dela. Entretanto, há poucas semanas, estava eu em casa num dia de semana quando a ouvi perguntar à empregada se ela não podia fazer pipoca para ela no meu micro-ondas. É isso mesmo! Pipoca, micro-ondas. Esperta, a Nena se esquivou dizendo que não sabia mexer no aparelho e que eu não estava. Fiquei bem escondida e ela foi embora.

À noite, porém, estava eu trabalhando distraída na sala, perto da janela, quando ouço me chamarem da rua... Era ela, de novo! E com o pacote de pipoca! Gelei... Ela me perguntou se eu não podia fazer a pipoca pra ela e na minha cabeça só ecoava a voz da Nena dizendo que era abuso, que era melhor dar uma desculpa qualquer para não criar costume... Mas eu não podia dizer que não sabia mexer, né?

Bem, pedi a ela para abrir o portão, peguei o pacote, fiz a pipoca e fui até o portão para devolver. Ela me perguntou se eu não trancava o portão de fora, se as cachorras não mordiam, se eu não tinha medo de morar ali sozinha... Ficou parecendo assaltante sondando o terreno. Mais uma vez, senti medo. Espero que isso não vire um hábito. A casa ficou cheirando enjoativamente a manteiga por horas, porque a pipoca era uma tal "de cinema". Talvez da próxima vez eu diga que o micro-ondas quebrou.

Bicudinha e Balu protestam:
"Queremos um ooelho para brincar!"

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A senhorinha e o embrulho


Agradeço a Nayce Ribeiro, Patricia Sotello e Marcelo Bastos, sem os quais essa história não teria sequer começado e, brincando, me fizeram continuá-la. ;-)

A senhorinha entrou no ônibus, (sobre)carregada de bolsas, guarda-chuva e um enorme, gigante, grande mesmo, embrulho. Teve dificuldades em encontrar a bolsinha com o Riocard, mas passou pela roleta, espetando a um e outro com o tal embrulho, que era fino e comprido. Procurou não atrapalhar ninguém, não atravancar a passagem, mas o fato é que não havia como não chamar a atenção carregando um embrulho daquele porte.

Sentou-se ao lado de um rapaz que, até então, mantivera-se alheio à movimentação da idosa e do embrulho. Chegou bem para o canto e procurou não olhar mais, porque lhe parecia indelicado olhar tanto, mas a verdade é que acabava espichando o olho vez ou outra. Seu maior medo era que a senhorinha notasse sua curiosidade e decidisse entabular conversa. Afinal, velho fala pelos cotovelos... E foi nisso que o ônibus freou bruscamente.

Nada grave: o motorista trocou meia dúzia de xingamentos com um pedestre imprudente e a viagem prosseguiu tranquilamente. Tranquilamente? Com a freada e sem que a velhinha percebesse, o embrulho rasgou e deixou à mostra um pedaço do que estava lá dentro. Alguns riram da situação, mas ninguém pareceu se dar conta do que era aquilo. Exceto o rapaz, um praticante de kung fu, que identificou claramente a existência de inscrições em chinês no que parecia ser o cabo de uma espada chinesa milenar, coisa que até então ele só tinha visto em livros. O que faria ali? E, ainda por cima, nas mãos de uma senhora de aparência tão frágil...

Neste momento, a senhorinha – ainda alheia a tudo – deu-se conta, estupefata, de que carregava uma espada milenar, com misteriosas inscrições em chinês no cabo, e que estava à mostra para todos os passageiros do ônibus. Ela, que sofria de Alzheimer, não fazia ideia de como havia chegado a tal situação: ela, uma vovozinha clássica, de coque e anáguas, a personificação da Dona Benta de Monteiro Lobato ou da vovó da Chapeuzinho Vermelho, ali, carregando uma bolsa com seu tricô em uma das mãos e aquela espada na outra... 

Ficou genuinamente confusa e decidiu descer no próximo ponto. Atrapalhou-se toda com suas sacolas e a espada, cada vez mais à mostra, o que causou um misto de terror e curiosidade entre os passageiros. O rapaz ao seu lado, vendo o que se passava, decidiu oferecer ajuda, mas isso apenas a assustou ainda mais. Ela desceu em carreira desabalada assim que o ônibus abriu a porta, deixando cair um cartão da loja Rei das Facas, no centro da cidade. Correu em direção à rodoviária.

O rapaz, de posse do cartão, rodava-o entre os dedos e conjecturava distraidamente quem seria aquela senhora e o que ela fazia com aquela espada. Aquilo certamente renderia uma boa história... A revista em que trabalhava estava à beira da falência e talvez aquela fosse uma boa oportunidade de reverter a situação. Que matéria fantástica aquilo poderia render! Capa! Tão absorto estava que não notou em momento algum os olhares furtivos do trocador do ônibus em sua direção. Achou curioso que uma espada como aquela pudesse ser comprada, ainda que numa boa cutelaria. Aquilo era artigo de antiquário, de museu... Algo estava errado.

O rapaz, que agora sabemos ser um jornalista sem muitas perspectivas profissionais (infelizmente como a maioria, aliás), nem deu pela aproximação do trocador, que esbarrou nele fazendo com que o cartão caísse de suas mãos. Neste momento, cabe aqui dizer que o trocador era um senhor de olhos puxados (provavelmente chinês, mas a gente nunca tem certeza dessas coisas) e que havia reconhecido a espada. Obviamente, sabia o que estava escrito ali. Sabia de cor cada inscrição ali gravada, ele, um aprendiz de kung fu, recolhido pelos monges do Templo Shaolin em tão tenra idade. Sim, ele sabia quem era aquela senhorinha, só não podia acreditar que ela ainda estivesse viva. E ter em suas mãos aquele cartão era sua única chance de reencontrá-la. Feito isso, talvez conseguisse reaver a espada e, assim, voltar para a China como herói. 

Teve sorte ao pegar o cartão antes que o rapaz, o que lhe deu oportunidade de ler não apenas o endereço do Rei das Facas, mas o nome do vendedor anotado à mão e outro nome, em chinês, no verso. Era a pista de que precisava. Por isso, não hesitou ao devolver o cartão ao jornalista, que começava a achar bem estranho que o trocador de olhos puxados estivesse fora de seu lugar e lendo tão interessado o cartão que a senhorinha havia deixado cair. Seu instinto lhe gritava que ali tinha coisa... Resolveu, então, seguir o trocador.

Terminado o expediente, o trocador pegou suas coisas e partiu em direção a uma loja de quinquilharias, dessas que vendem coisas a partir de R$ 1,99, bem no centro da cidade. A loja já estava fechando e, lá dentro, restava apenas um senhor oriental que reconheceu nosso trocador e fechou a porta da loja. O jornalista, que o estava esperando havia horas na garagem da empresa de ônibus e que o seguia desde lá, ficou estupefato ao ver que a loja tinha uma espécie de passagem secreta, por onde entraram os dois e de onde apenas o dono da loja saiu. Perdeu o trocador de vista.

Enquanto isso, a duas quadras dali, encontramos a senhorinha tomando chá na Colombo. Sim, a mesma senhora do ônibus, com suas várias sacolas e seu misterioso embrulho refeito. Neste momento, está lúcida e sorve cada gota do chá que toma acompanhado de uma torrada Petrópolis com bastante manteiga. Analisa quais serão seus próximos movimentos. Pensa que talvez fosse melhor fundir aquela espada e sumir com ela para sempre. Lembra-se claramente da primeira vez que a empunhou, de todo o seu treinamento em kung fu e da resistência que os monges tiverem a ela, tão loira e tão aparentemente frágil.

Essas lembranças, apagadas quase que completamente por sua doença, nunca foram levadas a sério na casa de repouso em que viveu por mais de 20 anos. Ninguém podia mesmo acreditar que ela fosse o que dizia ser: a musa inspiradora que fez Quentin Tarantino filmar “Kill Bill”. Sim, era ela a Noiva, em carne osso e sangue, muito sangue. Tanto sangue que os monges acabaram por botar seu melhor aprendiz em seu encalço, mas há anos não sabia dele. Ela, que já havia concluído sua vingança, acabou indo parar num asilo quando sua filha decidiu que não conseguiria lidar com o dia a dia do Alzheimer. No início, recebia visitas praticamente diárias, mas estas foram rareando e havia anos não tinha notícias da filha. Estava só no mundo. Um dia, as contas do asilo deixaram de ser pagas e, cruelmente, ela foi posta na rua. E isso, obviamente, não poderia ficar assim!

Esta aparentemente frágil senhorinha passou a viver em abrigos e a catar latinhas para conseguir algum dinheiro. Fez tricô, crochê... Tudo que estava a seu alcance. Precisava comprar uma nova espada. Não fazia ideia do que havia acontecido com a antiga... Provavelmente, foi vendida pela filha por qualquer ninharia. Esses jovens são assim! Não sabem dar valor às antiguidades... Mas qual não foi sua surpresa ao deparar justamente com a sua espada milenar, ceifadora de tantas vidas, numa cutelaria da rua da Carioca? E a preço de banana! Apenas porque havia acumulado, nesses anos, alguma sujeira... Nada que não pudesse ser resolvido com um bom polimento. Que achado! Comprou a espada no ato, à vista, sem dar bola para o vendedor boquiaberto que a atendia.

Estava ela absorta nessas considerações quando o trocador, de quem não tínhamos notícia desde que havia sumido na loja de quinquilharias, sentou-se à sua frente. Ela o reconheceu imediatamente e apenas perguntou se ele estava servido de chá. Ele, agora vestido a caráter, aceitou uma xícara e agradeceu. Um silêncio estabeleceu-se na mesa. Como entabular conversa com a pessoa que você tenta matar há mais de 20 anos? O que dizer para aquele que lhe jurou de morte? É possível conversar civilizadamente numa situação dessas?

O trocador disse, então, para quebrar o gelo: 

— Há quanto tempo! Você vem sempre aqui?

Ao que a senhorinha apenas sorriu e disse que não, que havia muito tempo que não tinha condições financeiras de frequentar a Colombo, mas que aquela era uma data especial, de tantos reencontros, e que merecia ser celebrada. Conversaram por horas a fio e ela lhe falou de sua trajetória e de seus planos para o futuro. Disse não se incomodar em morrer, especialmente pelas mãos dele, que já lhe estavam destinadas havia tanto tempo, mas que antes precisava se vingar mais uma vez e esperava ter sua colaboração...

— Posso contar com sua ajuda, não? Depois disso, eu lhe entrego minha espada e você poderá cortar minha cabeça e cumprir as ordens que recebeu dos monges do Templo Shaolin.

Acordo feito, só não sabiam que sua conversa estava sendo ouvida não muito distante dali. Em outra mesa, o jornalista, aquele que aparentemente havia perdido de vista o trocador na loja de quinquilharias, ouvia tranquilamente toda a combinação. Decidiu que já era hora de aparecer e pedir uma exclusiva aos dois. Como moeda de troca, ofereceria ajuda para que o trocador fugisse, terminado o serviço. Ajudaria, inclusive, na vingança da velha senhora. Valia tudo para ter aquela história fantástica em suas mãos! Então, dirigiu-se à mesa em que estavam os dois idosos, pediu licença e sentou.

Não levou muito tempo para convencê-los de suas intenções e logo trataram de arquitetar todo o plano. Levaram alguns dias para acertar todos os detalhes, porque a senhorinha tinha Alzheimer e sofria graves lapsos de memória, além de estar ligeiramente enferrujada no manuseio da espada. E o trocador, embora mais ágil, também não estava exatamente no auge de sua técnica... Mas logo ficou combinado que o trocador seria levado pelo jornalista, que diria ser seu sobrinho, ao asilo. Uma vez internado, ele iria identificar quem havia sido responsável pela expulsão da senhorinha. A principal suspeita era a diretora da instituição, que seria, então, capturada e levada à presença da senhorinha vingativa, que a degolaria num só golpe de espada. 

E assim transcorreu o plano, sem maiores problemas. O trocador descobriu que a filha, responsável pelo pagamento, havia morrido atropelada (por isso deixou de visitar a mãe, logicamente) e deixado todo o seu dinheiro para o asilo, sob a condição de que cuidassem de sua mãe até sua morte. Mas de nada lhe adiantou ser tão precavida, já que a megera da diretora, tão logo pôs as mãos na grana, botou a velhinha na rua. Ou seja, ela realmente merecia morrer. E morreu, pelas mãos da mesma senhorinha que chamava de maluquinha porque dizia lutar kung fu.

Mais uma vez vingada e sabendo que não havia sido abandonada por sua filha querida, nossa senhorinha ajoelha-se e entrega sua espada milenar ao seu carrasco. Não tem mais razão para viver e é com resignação que estica o pescoço para facilitar o serviço do trocador. Seus cabelos brancos estão enrolados num coque impecável, seu rosto está sereno, olhos fechados... Então, ouve um tiro.

Abre os olhos, confusa... O jornalista acertou o trocador bem no meio da testa, matando-o instantaneamente. A espada lhe cai das mãos, bem à sua frente. Ela a agarra e espera. Não faz a mais remota ideia do que está acontecendo. O jornalista cai de joelhos aos seus pés e entrega-lhe a arma. Ele, que teria idade para ser seu bisneto, lhe declara todo o seu amor. Diz que quer viver ao seu lado e cuidar dela até o fim, e que abandonará a revista em troca dos anos (que ele sabe poucos) que viverão juntos. Ela sorri marotamente e deixa entrever, por baixo do vestido recatado, uma sexy cinta-liga onde repousa uma pequena faca.

Eles, que haviam conseguido recuperar boa parte da herança deixada pela filha da senhorinha (porque a tonta da diretora não confiava em bancos e guardava tudo debaixo do colchão), partiram rumo ao Amazonas, onde ficaram navegando para cima e para baixo, como em “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, livro de que ambos se descobriram fãs. Nos anos que se seguiram, entre muito amor e tédio, o jornalista aproveitou para fazer uma biografia de sua amada, que ele prometeu só publicar após a sua morte.




Não há limites para a imaginação.

domingo, 20 de maio de 2012

Se contar, ninguém acredita!


Escrito em 5 de março de 2001.

Quando comprou a casinha no alto do morro, bem no meio da favela, o vendedor ainda disse, em tom de brincadeira, que ele estava fazendo um grande negócio, não iria se arrepender, a vizinhança era bastante silenciosa. Referia-se ao cemitério vizinho, cujo muro era logo ali à esquerda.

O sujeito só não comentou – mas é compreensível, senão seria um mau vendedor – que o silêncio igualmente era sepulcral entre os vizinhos vivos. Até porque, se não fosse assim, passariam para o lado de lá do muro, morro abaixo, e isso ninguém queria. Portanto, vivo ali era mesmo sinônimo de esperto, já que apenas estes sobreviviam. O problema estava nos que se achavam espertos... fúnebre diferença.

Infelizmente, descobriu a realidade da pior maneira. Bem que achou estranho o sumiço daquele vizinho falador, que tomava umas e outras no boteco da esquina e sumiu, de repente, sem deixar vestígios. Caiu na besteira de perguntar, procurar saber o motivo, mas ninguém dizia nada. Não conseguiu entender o que o silêncio dizia.

Se não tivesse insistido tanto, talvez não levantasse tantas suspeitas... Mas não foi o que aconteceu e sumiram com ele da mesma forma que com o outro (e outros). Só que era preciso decidir o que fazer com o defunto, como ocultar o presunto, essas coisas. Não podiam fazer o mesmo que fizeram com o anterior, pois o lugar já estava muito visado. E, além disso, era bom não despertar mais desconfianças entre os vizinhos.

Pensaram em colocá-Io no valão da esquina, ou jogar no matagal daquele terreno baldio, ou até enfiar num saco preto e colocar na caçamba de lixo. Porém, estas opções não eram nem um pouco originais e, todas, muito suspeitas.

Então, alguém teve a brilhante ideia de jogar o cadáver por cima do muro, morro abaixo. Esta solução parecia fantástica! Afinal, um morto a mais ou a menos, em um cemitério, não despertaria qualquer suspeita. Era capaz, até, de ser enterrado, mesmo que em cova rasa, como indigente. Isso seria um luxo para o morto que era, em tão baixa conta.

No cemitério: um cadáver em busca de um lugar para descansar

No dia seguinte, um funcionário vinha caminhando por uma alameda, em direção à parte nobre do cemitério. Ia carregando urn carrinho de mão cheio de ferrarnentas de jardinagem, para tratar dos pequenos jardins que as famílias faziam questão de manter próximos aos túmulos. Era de manhãzinha e tomou um susto:

— Caramba! Tem um defunto aqui!!!

Um companheiro, que estava por perto, apenas riu e disse:

— Ora, não diga! Esperava que o sujeito fosse enterrado vivo?

Então, o primeiro, ainda confuso, mas percebendo o ridículo da situação, procurou explicar melhor:

— Não, este não está enterrado! Está caído aqui no jardim da dona Rosalva ...

— Ora, como é possíve!? Será algum visitante? Ou alguém mal-morrido, enterrado por engano, e agora morto de fato?

— Olha, não sei... Não parece ter estado enterrado... As roupas estão em muito mau-estado, bem sujas, parece pobre... E tem sangue fresco! Este sujeito foi assassinado!

— Chi, deve ser coisa dessa favela barra pesada, lá no alto do morro. Precisamos chamar o chefe.

Foram os dois correndo atrás do administrador do cemitério...

A droga da obediência

O chefe estava em sua sala com ar condicionado, olhando umas revistas que fez questão de esconder (e que vão ser deixadas de lado, pois não têm nada a ver com a história). Olhou para os dois funcionários, pálidos como dois cadáveres, e não resistiu à brincadeira:

— Por que estas caras? Parece até que viram um defunto!

E deu uma sonora gargalhada, que foi interrompida imediatamente, da seguinte forma:

— Mas foi exalamente isso, doutor!

Dessa vez, quem ficou confuso foi o chefe, que não sabia o que responder:

— Mas vocês já não estão acostumados?

— Estamos, senhor... O problema é que este não está enterrado.

— Como assim não está enterrado? E por que não enterram? Afinal, vocês são pagos para isso mesmo...

— Acontece que esse foi assassinado... E está mal-vestido... E...

— Vocês estão doidos? E desde quando nós nos preocupamos com a forma como as pessoas morrem ou estão vestidas? Todos têm o mesmo direito a um enterro... Claro que uns pagam mais, outros menos, mas...

— Não, não! 0 senhor não está entendendo, este homem parece ter sido assassinado aqui dentro... – disse o primeiro funcionário.

— ... ou nas redondezas, e o corpo foi jogado aqui dentro – completou o outro.

Então, o administrador percebeu a gravidade da situação:

— Cacete! Só faltava essa: fazerem nosso cemitério de local de desova! Precisamos chamar a polícia... Mas antes é preciso ter mesmo certeza de que não é nenhum dos nossos mortos. Senão, imaginem a confusão... Em todos os jornais, a desorganização de nosso cemitério, e as famílias virão aqui querendo levar seus mortos!

E agora, José???

Todos os funcionários do cemitério foram chamados para verificarem cova por cova, gaveta por gaveta, tumúlo por tumúlo, qualquer sinal de irregularidade. 0 administrador foi com os dois funcionários ver o tal cadáver, largado bem em cima das flores da dona Rosalva.

Convenceu-se de que era um defunto desconheeido e resolveu ligar para a polícia. Então, discou o 190 para dizer:

— Olha só, sou o administrador do cemitério Caminhando nas Nuvens e estamos com um problema: apareceu por aqui um defunto. Parece ter sido morto à bala... Isolei o local onde ele está para esperar a polícia. Isso foi de manhãzinha.

— Mas o senhor já devia esperar por isso, administrando um cemitério... Não vejo por que um defunto em um cemitério seja caso de polícia.

— Porque ele foi assassinado, moça!

— Quer dizer que é assim? Foi assassinado e não enterra, só com a polícia?

— Enterrar, enterra... Mas tem o problema da papelada, ele não tem atestado de óbito. Apareceu aqui de manhã, em cima do jardim da dona Rosalva.

— E como ele foi parar aí? Quem é dona Rosalva?

— A dona Rosalva não tem nada a ver com a história... Eu não sei como o defunto veio parar aqui!

— Como não tem nada a ver? Mas ele não estava no jardim dela? Ela mora no cemitério?? Pensei que só gente morta pudesse... E como não sabe? Isso é uma total falta de organização! É assim que vocês tratam dos entes queridos de milhares de pessoas? Não têm o mínimo controle?? Ninguém assina nada?

— Moça, essa conversa está passando dos limites! É claro que somos organizados, há um enorme procedimento administrativo para enterrarmos pessoas... Mas, neste caso, o que estou tentando dizer é que estão fazendo o meu cemiterio de local de desova!!!! ...  e outra coisa: a Dona Rosalva está morta, é claro!

— Ora, por que não disse antes!? Teria poupado meu trabalho... Eu poderia mandar prendê-lo por obstruir o caminho da Justiça! Vou mandar uma viatura, imediatamente... E um rabecão... Meus sentimentos pela dona Rosalva, imagino que deva ser um choque encontrar alguém morto no jardirn e...

– Tu... tu... tu...

– Ué? Desligou! Bem que eu achei que devia ser trote...

Mais perdido do que cego em tiroteio

Melhor mesmo não chamar polícia nenhuma... O problema é que uma notícia dessas não pode se espalhar por aí... Senão, em breve, além de viaturas e policiais, rnilhares de jomalistas invadiriam o cemitério e espalhariam as mais diversas mentiras. Nisso, talvez transformassem a tal da dona Rosalva (aliás, morta há mais de 30 anos) na terrível assassina de um pobre coitado que estava dormindo em seu jardim. Não, isso não poderia acontecer jamais! Mas, o que fazer, então??

Talvez fosse o caso de enterrar o sujeito, como indigente, ficava tudo do jeito que estava e pronto. Mas, aí, quem jogou o corpo vai gostar da ideia, ver que deu certo e virar freguês. Então, o prejuízo não vai ser o de uma covinha rasa, mas de várias... Não, esta hipótese estava descartada. Colocar num mausoléu de alguma família já extinta também não podia ser, pelo mesmo motivo.

E se jogasse o corpo naquele buraco da esquina? Muito arriscado. Ou se largasse o coitado ali na porta do botequim? Também não. A polícia podia aparecer... E já pensou?? A manchete: "Administrador de cemitério desova cadáver inadimplente". Barbaridade! Isso não, péssima publicidade...

Ou, talvez, devesse queimar... Muito caro. Ou, ou... Pior que não pode demorar. Qualquer hora alguém acaba batendo com a língua nos dentes e vai todo mundo preso, como cúmplice no assassinato! Jornalista é uma praga, descobre tudo!

— Mas é claro! Só resta uma opção! Devolver o corpo para o seu local de origem, por cima do muro!!! Vocês dois vão me ajudar, afinal foram vocês que me apareceram aqui com este abacaxi! Nada mais justo que me ajudarem a me livrar dele.

O início de um triste fim...

Foi então que, na calada da noite, três vultos subiram a ladeira que levava ao muro que demarcava o fim do terreno do cemitério. Dois deles carregavam um enorme saco preto, e outro iluminava, apavorado, o eaminho. Esforçavam-se por parecer tranquilos, mas tremiam consideravelmente.

Já estavam quase chegando no muro, quando perceberam uma luz vermelha intermitente. Aproximaram-se devagar, mas um enorme clarão os cegou: um helicóptero da polícia jogava um enorme holofote bem em cima deles.

As patrulhas e camburões lotados, com suas lanternas acesas, estavam ali bem perto do muro, e eles receberam voz de prisão. Eles, sem opção, levantaram os braços, largararn o corpo morro abaixo e foram tentar se explicar... Mas que explicação dariam?

A porca torce o rabo

No dia seguinte, todos os jornais estampavam a manchete: "Polícia invade favela e desmonta esquema de cemitério clandestino. Administrador e comparsas são presos". O corpo que eles carregavam acabou sendo enterrado como indigente, por falta de quem o identificasse; seus assassinos foram presos numa cela em que havia um túnel para a favela (como sempre, essa gente não esquenta lugar na prisão); os outros moradores continuararn calados (como sempre); os policiais continuaram invadindo a favela periodicamente (para se livrar do tédio?); e o administrador e seus dois funcionários... Esperam por urn julgamento justo. Longa espera. Mas, aí, a história já é outra.





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Olga e o taxista

Escrito em 16 de agosto de 2011.


Todo sábado, Olga ia almoçar na casa de sua filha. Acordava cedo, alimentava seu gato, tomava seu café da manhã e começava a se aprontar pra sair. Levava horas nisso! Escolhia sua roupa com esmero, os acessórios e o sapato que usaria. Já havia tentado deixar tudo pronto de véspera, mas nunca dava certo: acabava mudando tudo, já que seu estado de espírito já não era o mesmo do dia anterior.

Os cuidados que tinha com seu cabelo, grisalho, eram um espetáculo à parte. Levava com o shampoo e o condicionador apropriados, enrolava mecha por mecha em bóbis de plástico e deixava secar naturalmente. Raramente apelava para o secador. Só tirava os bóbis depois de vestida e devidamente maquiada. Claro, a maquiagem também era um capítulo importantíssimo em sua rotina diária. No sábado, então!

Olga tinha muito orgulho de sua filha única, mas nunca soube como se aproximar. Nunca foram muito próximas e, com o passar do tempo, foi vendo as chances de estreitar laços com Gilda se esvaírem por entre seus dedos. Por isso, os almoços de sábado eram tão especiais. Sabia que era preciso caprichar, causar a melhor impressão possível. Queria que sua filha se orgulhasse por ter uma mãe ao menos elegante, já que não tinham mesmo muito em comum.

De quem seria a culpa? Talvez de ninguém, mas a verdade é que nunca perdoou Brígida. Quando jovens, eram melhores amigas. Unha e carne. Não se desgrudavam para nada. E isso continuou mesmo depois do casamento de Olga com Amadeu. Brígida continuou ali, sempre presente. Não foi à toa que foi escolhida madrinha de Gilda.

Brígida nunca casou. E Amadeu, o marido de Olga, morreu jovem. Gilda contava apenas 4 anos quando ficou órfã de pai, mas nem sentiu tanto porque a dinda Brígida logo veio morar com ela e a mãe. Durante os primeiros meses, o arranjo funcionou bem. Brígida era muito prática, logo botou ordem na casa. Todas as resoluções da casa deveriam passar por seu crivo e isso incluía controlar todos os passos de Olga e Gilda.

Com Gilda, era mais flexível. A menina cresceu sem maiores traumas e teve na madrinha um porto seguro. Era como se esta desempenhasse o papel do pai que ela não tinha. As saídas, os namoros, tudo era negociável. Mas o mesmo não se dava quando o assunto era Olga.

Pobre Olga! Prisioneira em sua própria casa! Não podia sair sozinha, mal podia assomar ao portão para ver o movimento. Brígida a recriminava por qualquer coisinha, sob o pretexto de que devia dar um bom exemplo para a menina. Ela não entendia a mudança de comportamento de sua melhor amiga, antes tão companheira. Sentia-se fraca e confusa demais para reagir.

Foi então que, aproveitando uma rara viagem de Brígida, Olga travou contato com um rapaz da vizinhança. Sabia que ele era casado, mas estava havia tanto tempo sem ser cortejada que isso não lhe pareceu um problema. Seu nome era Carlos e era bem mais velho que ela. Dizia que não amava mais sua esposa e que só mantinha o casamento fracassado por conta das aparências. Oh, palavras sedutoras! Não entendia por que sempre ouvira Brígida referir-se a ele como um bronco, um grosseirão… Aquela força de Carlos lhe parecia tão apaixonante! Achava-o dotado de um vigor tão extraordinário! Era careca, é verdade, mas a pele dourada de sol, a compleição forte, os quase dois metros de altura… Ah, que homem! Que homem! Até hoje seu corpo estremece ao pensar nele. Mas ali começou sua perdição.

Olga, tão pouco acostumada ao mundo, vivendo em clausura havia sabe-se lá quanto tempo, cedeu às investidas de Carlos. Achou que ele, de fato, seria dela, ainda que ele jamais largasse a esposa. Acreditou piamente que conseguiria esconder tudo de Brígida e, principalmente, de sua filha, Gilda. Ledo engano: logo uma vizinha a viu trocando bilhetes e carícias furtivas com Carlos no portão. E o mundo, como era de se esperar, veio abaixo.

A mulher de Carlos, que sabia muito bem o marido que tinha, logo deu um jeito de impedir que ele sequer encontrasse novamente a amante. E Brígida, quando soube, não sossegou enquanto não viu mãe e filha completamente afastadas. Olga foi pintada como uma devassa, uma criatura sem escrúpulos, alguém que não deveria jamais ser responsável pela criação de uma mocinha. Gilda, por conta disso, foi parar no internato e jamais perdoou sua mãe. Nem tanto pelo caso com o homem casado, que ela acabou entendendo, mas por sua postura tão submissa perante os mandos e desmandos da madrinha (que ela adorava, porém).

A relação de mãe e filha nunca se refez. Brígida continuou presente na vida de Gilda por todos esses anos. Hoje, em sua velhice, é ela quem ocupa o quarto de hóspedes. Porque Gilda tem certeza de que somente ela poderá lhe ajudar na criação dos gêmeos. Afinal, ela e o marido nunca param em casa. E sua mãe, bem, sua mãe é uma dondoca imprestável que nunca soube lidar com crianças.

Por isso, Olga vive em um asilo. Luxuoso, é verdade. Um lugar em que é bastante paparicada e onde tem muita independência, mas ainda assim um asilo. Sua filha não lhe deixa faltar nada, mas nunca vem lhe visitar. O máximo que lhe concede é este almoço de sábado, única ocasião em que Brígida permite que ela se aproxime da filha e dos netos. Aos sábados, Brígida vai visitar a casa de uma amiga em Paquetá. Não sem antes deixar tudo preparado, porém. Dá claras instruções à empregada para impedir que qualquer conversa seja travada por mais que alguns minutos durante o almoço. E, ao voltar, pede-lhe um relatório completo do que foi dito e feito ao longo do dia.

Sempre que termina de se arrumar, Olga aguarda que a cooperativa lhe envie um táxi. Entretanto, este sábado, é informada de que não há carros disponíves. Parece que a chuva do dia anterior trouxe tantos estragos que boa parte dos motoristas preferiu não arriscar sair de casa. Tiraram o sábado para descansar, ou talvez seja porque o horizonte anuncie um temporal ainda mais terrível para logo mais.

Então, sem mais remédio, Olga caminha até a rua em busca de um táxi. Não pode perder o almoço na casa de sua filha! Precisa ver seus netos! Tão lindos e tão distantes… Quase não passam carros, muito menos táxis. E estes, quando passam, levam passageiros. Até que faz sinal para um que parece vazio. O carro não é muito novo, mas também não está caindo aos pedaços. O motorista, um senhor pouco mais jovem que ela, tem uma boa cara. É gordo, risonho, falastrão. Uma simpatia! Vão conversando sobre amenidades por todo o caminho.

Incentivada pelo bom humor do motorista, Olga contou sobre a importância do almoço com sua filha. Não entrou em detalhes. Não falou de sua mágoa com Brígida. Não falou de Carlos, nem nada parecido. Mas o motorista, talvez porque ela tenha deixado transparecer sua tristeza, ou talvez por simples vício profissional, lhe entregou seu cartão. Nele constava seu nome e seu telefone. Olga ficou atônita quando lhe ouviu dizer:

— Olha, dona, a senhora não leve a mal o que vou dizer. Este é o meu cartão para o caso de a senhora algum dia precisar de meus serviços. Sou matador profissional, tenho mais de 20 anos de experiência e mais de 50 mortes nas costas. Esta aqui é minha companheira – e abriu o porta-luva, de onde sacou uma pistola.

Olga pegou o cartão, tentando disfarçar seu nervosismo o máximo possível. Sua cabeça girava. De repente, teve medo: medo de que aquele homem soubesse onde sua filha e seus netos moravam! Começou a tramar um plano para se livrar daquela situação inconveniente e acabou pedindo para que ele a deixasse a duas quadras de seu destino. Curiosamente, o local onde antes ficava a casa de Amadeu, onde hoje há um prédio. Fingiu tocar o interfone e ficou esperando pacientemente que ele se fosse. Só então, começou a caminhar em direção à casa da filha. Estava um pouco atrasada, precisava correr.

O cartão queimava em sua mão… E as últimas palavras ditas pelo motorista ainda ecoavam em sua cabeça: “Garanto um serviço limpo, rápido e discreto. E, para a senhora, faço um precinho camarada. Gostei da senhora. E gosto muito do meu trabalho, também. Então, não me incomodo de dar desconto: o importante é ver a satisfação do freguês. É só me dizer quem a senhora quer apagar que eu dou um fim na pessoa”.

Olga, decididamente, precisava correr. Este, certamente, seria o último sábado em que ela seria visita na casa de sua filha. Tinha certeza de que logo deixaria o asilo, pois sua presença ali seria necessária. Mal podia esperar para tomar conta dos netos, vê-los crescer dia a dia. Faria, certamente, algumas mudanças naquele quarto de hóspedes... Bastava apenas que ela desse um telefonema ao chegar. Pobre Brígida! Aquela região da Praça XV é mesmo muito perigosa…

Ah, esses taxistas...


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sexo e cigarro

Escrito em 15 de agosto de 2011.

Terminado o sexo, ele acendeu o cigarro. Gesto mecânico dos dedos que, em silêncio, correm para o pacote de cigarros e para o isqueiro. Nada além disso. Momento de não pensar em nada, não sentir nada além de corpo e mente relaxados. Torpor e fruição. Observa a fumaça que, aos poucos, toma conta do espaço enquanto forma desenhos abstratos no ar. A única preocupação que passa por sua cabeça - e nem é de fato uma preocupação - é saber se ela vai se incomodar com o cheiro, com a fumaça. Afinal, ela não fuma, e eles se conhecem há poucas horas. 

Ela, também relaxada, se aninha no ombro dele com a languidez típica das que acabaram de gozar. Também em silêncio, sente as pernas doloridas e começa a reparar que há rachaduras no teto, que não vê tinta há anos. Pensa que há uma série de coisas que precisa lembrar de pedir à faxineira, como limpar aquelas terríveis teias de aranha. Admite que, se não pedir, ela não vai limpar. Ouve o cachorro do vizinho latir, uma obra ao longe, os barulhos do trânsito que vêm de longe. Escuta claramente a vizinha brigando com o filho que parece ter quebrado alguma coisa. Acha que talvez seja hora, também, de trocar as cortinas e mudar a cor das paredes. Lembra de uma cena do filme que viu no outro dia, tão parecida com algo que ela já havia lido em algum lugar. Como era mesmo o nome daquele livro?

Então, ela percebe a fumaça e se dá conta de que não está sozinha. Passa a observar os desenhos que se formam no ar, inala o cheiro que se desprende do cigarro fumado por ele. Apesar de não fumar, nunca se incomodou muito com a fumaça largada por seus amigos fumantes. Nos tempos de movimento estudantil, ficavam todos trancados numa saleta preparando os materiais gráficos que seriam distribuídos no dia seguinte. Jornais, folhetos e filipetas que demandavam horas e horas de trabalho. O único inconveniente que a fumaça lhe trazia era o ardor nos olhos, mas nada que um colírio não resolvesse rapidamente. Na verdade, a fumaça do cigarro, o cheiro da nicotina, era para ela inebriante. E, por isso, começou a fitá-lo.

Ele se desconcertou ao reparar que ela não parava de lhe encarar. Pensou que, afinal, ela ia reclamar do cigarro. Isso que dá trepar com mulheres que não fumam! Mais cedo ou mais tarde, elas sempre reclamam. Claro que com ela isso não ia ser diferente. Estava quase zangado por ter sido obrigado a pensar antes que o cigarro acabasse. Mas notou que não havia nada no olhar dela que denunciasse qualquer sombra de aborrecimento. Na verdade, ela sorria, parecia feliz. E isso o deixou confuso. Putz! A doida apaixonou! Será? Mas já? Nem achou que o sexo tenha sido assim tão espetacular... Carência feminina é foda. 

E como se ela não parasse de sorrir para ele, resolveu perguntar:

— Que houve?

— É que o cheiro do cigarro me excita, ela respondeu. 

Estava exausta, mas a verdade é que havia anos tinha descoberto que aquele era um gatilho sexual e tanto. Se ele topasse, não hesitaria em fazer sexo de novo e de novo e de novo. Aliás, racionalizando a coisa, o cheiro do cigarro havia sido uma das coisas que havia lhe chamado a atenção nele. Havia passado horas, no bar, observando-o acender e fumar cigarros na calçada em frente, vários deles. E começou a se imaginar entre aqueles dedos...

Mas ele, ainda a meio cigarro, após um breve silêncio ante a surpresa causada pela resposta dela, disse apenas:  

— Eu, hein!? Nunca vi isso! Se masturba aí, então...




quinta-feira, 19 de abril de 2012

Good morning, Mr. Murphy!

Você precisa fazer um exame de sangue, mas não acha o pedido em lugar algum. O tempo vai passando, a data da próxima consulta - na qual você deverá apresentar o exame - se aproxima. Daí, você resolve apelar, liga para o médico, explica à secretária qual a situação e ela diz que é só passar lá no dia seguinte de manhã para pegar um novo pedido. Já estará prontinho, esperando...

Então, você vai dormir em jejum. Acorda, se arruma e passa no consultório do seu médico... E descobre que ele errou seu sobrenome. Pronto! Murphy deu as caras. Você devia era ter ficado em casa, remarcado a consulta... É certo que, a partir daí, tudo vai desandar. Bobagem? Vejamos:

De posse do novo pedido, que precisou que o médico terminasse a consulta que estava em andamento no momento em que você chegou ao consultório, você segue para o laboratório. Ele está lotado, obviamente. Você pega uma senha e percebe que há apenas seis pessoas na sua frente. Ok, não é tão ruim. Você ainda tem quase uma hora até que o jejum torne-se excessivo para a realização do exame de sangue. O que fazer? Aguardar e torcer para que tudo corra rápido, claro.

Rápido? Não, Murphy só acelera o que não presta... Na entrada do laboratório, um cartaz avisa que os que têm horário marcado NÃO precisam de senha. Resultado: as DUAS atendentes não dão conta da demanda, ora. Em meia hora de espera, apenas dois números das senhas são chamados. O que fazer senão desistir? Em quinze minutos, você já não poderá mais fazer a coleta. Você ainda nem entregou o pedido! Até chamarem para o exame propriamente dito, imagine o tempo.

É hora de levantar, zonza de fome. Você se dirige a uma atendente para pegar um formulário de (in)satisfação e escreve um rápido desabafo. Ao colocar a reclamação na caixinha, você vê seu número ser chamado: a isso se dá o nome de "requintes de crueldade". Saia daí, logo! É preciso comer alguma coisa e, saindo do laboratório, você vê o Palheta quase sem fila. Pede um espresso e uma broa de milho, espera. Ao seu lado, um grupo de senhoras conversa sobre a vida. Aparentemente, o assunto surgiu ali, elas nunca se viram antes, mas as frases são pesadas: "viver dá câncer" é o ápice. Ok, baita dia auspicioso esse...

Você engole o café e come a broa enquanto ouve as frases de efeito das senhorinhas... Vai para o Metrô, pois é preciso correr para o trabalho, afinal. Seu cartão, como era de se esperar, tem saldo insuficiente e há fila tanto na bilheteria quanto na única máquina de recarga. Você espera, já achando tudo meio engraçado. Afinal, há uma certa graça nisso tudo, não? O jeito é relaxar e ir para a plataforma esperar o trem.

A espera nem demora tanto. Opa! A coisa tá melhorando...? Não, claro que não. Um sujeito careca e capoeirista (é o que sugere a camiseta que ele veste) parece falar sozinho. Na verdade, ele está ao telefone, mas com aqueles fones de ouvido ridículos que permitem que ele não use as mãos. Ele está no meio de uma DR com uma tal de Bárbara, que ele não para de recriminar um só segundo e parece que vai viajar, mas ele tinha passado no dia anterior para se despedir e ela não foi carinhosa o bastante... Você pensa: ok, daqui a pouco a ligação cai. Não, querida, cairia se fosse o SEU telefone. O do moço continua firme e forte, assim como a DR, que dura pelo menos até a Central. 

Você sempre tem um livro na bolsa, seu ipod e os fones de ouvido, certo? Errado: quase sempre. Você poderia ser como a pessoa que ouve som sem fone do outro lado do vagão, mas não, ainda lhe resta algum senso de civilidade. Qual a solução? Respire fundo, a Carioca está chegando. Desça do vagão sem olhar para os lados, não pare no meio do caminho... Exceto para esperar o sinal, que acabou de fechar, abrir novamente. E prepare-se para um excelente dia de trabalho, porque... AINDA não é sexta-feira!




terça-feira, 17 de abril de 2012

Vida de Maria

(ou Empregada de cama e mesa)


Escrito em 6 de maio de 1996.

Maria, cadê meu café? Cadê meu jornal?
E as minhas meias? Meus sapatos? Minha camisa?
Minha calça? Cadê??
Ei, Maria, deixa de lerdeza!! Maria, sujei o chão!
Maria, vem limpar isso aqui! Como é que é? Não vai limpar, não??
Arruma essa zona, sua imprestável!!
Maria!!! Onde estão minhas chaves!?
Hein, Maria!? Cadê???
Maria, deixa essa novela e vem fazer minha comida!
Maria, deixa de ser maria-mole, sua vadia!
Maria, você está pálida... Maria, isso é gripe!?
Maria, eu não posso ficar doente, pega uma vitamina pra mim!
Maria!! Você demora muito, sua estúpida!
Maria, cala a boca dessa criança!! Não tô conseguindo ouvir o jogo!
Maria, a Mariazinha tá muito magrinha...
Maria, nem como mãe você presta! Você é um fracasso!
Você não serve pra nada, mulher!
Vai preparar meu banho, sua vadia!
MariaaaAAA!!!! Prepara a cama!
Maria, vem deitar! Tira essa roupa!
Mas vai tomar um banho antes, que você está um nojo...
Mas, não gasta água, não, e vê se toma banho frio!
Maria, você tá puro osso! Que nojo!
Maria, que perna final Que peito caído!
Assim não dá! Amanhã mesmo eu procuro outra!
Nem como muiher você serve!
Pode arrumar suas coisas!
E leva essas crianças nojentas...
Eu sei, são meus fiihos também...
Façamos o seguinte: te empresto o dinheiro do ônibus!
Maria! Maria? Maria!? Ei, responde!!!
Maria!!! Fala comigo!!! Querida?
Ei! Fala! Sua vagabunda! Logo no meu colchão?
Sai daí! Você tá meio fria... Hummmmmm...
Sabe que assim você fica gostosinha?
Vem cá, vem! Hummmmm...





sábado, 7 de abril de 2012

Conto de natal

Escrito em 28 de dezembro de 1998

Aquela mulher sim sentia dor, intrínseca. Uma dessas dores que secam as tripas, ressecam o ventre e não explicam o porquê. Doía na profundeza de suas entranhas e um grito mudo rasgava sua garganta e engasgava em soluço seco, sôfrego, delirante.

Mas não havia explicação e ela era apenas mais uma mulher em um quarto úmido a sentir dor. Uma entre milhares espalhadas pela cidade, ou talvez pelo bairro. Quem sabe no mesmo prédio não havia mais uma, semelhante?

Era natal e era uma mulher e era sozinha e o quarto vazio era úmido e escuro, apesar da grande janela com vista para o mar em plena Zona SuI do Rio de Janeiro. Tantos gostariam tanto de uma janela assim para ver o mar! Tantos se satisfariam com tão pouco. Pouco?

Aquela mulher já não via o mar, os vidros da janela eram foscos. A luz do sol incomodava tanto pela manhã! Maresia com cheiro de mofo. E os vizinhos de elevador, cachorro em punho, bicicleta a postos... eram tão felizes... Horas ao cair da tarde tomando água de coco nos quiosques da orla e ela nunca foi sequer convidada. Gente metida. De certa forma era bom manter distância, sem fofocas, preservar sua privacidade. Assim ninguém nem chegava perto. Por falta de coragem?

E era natal. Quando menina chegou a ganhar alguns presentes, mas começou a trabalhar, e trabalhar era importante. Sua família era pequena, até que acabaram morrendo, era o natural. E ela não comprava presentes, não tinha mesmo para quem dá-Ios. Nada ganhava, tampouco. Também, de quem ganharia? Mais urn natal, e nem o carteiro passava pedindo a caixinha de natal.

Alias, não fossem o porteiro e a faxineira aparecerem vez ou outra, capaz de pensarem que o apartamento estava vazio. Todo fim de semana era a mesma coisa, viva o desespero dos que dependem da tv. E agora, um mês inteiro: férias enlouquecedoras. Antes passar o dia inteiro fazendo contas em uma sala gelada. Ganhava bern, era competentíssima. Mas não tinha trabalho no fim de ano. Então... férias.

Havia já uma semana, a dor era insuportável. E nenhum médico explicava direito e ela não explicava também direito a nenhum deles. Onde doía? Ela não saberia responder. Os médicos, então vinham com uma história de análise, essas besteiras, e ela nunca tentou. Um médico um dia descobriria a verdade. Afinal, obviamente, ela devia ter era câncer... Sim... Câncer? Lógico, só podia ser câncer! Aquela tia velha tinha mesmo morrido de câncer. Mas, então, não havia mais jeito... Ela ia morrer logo, tinha câncer.

Tomou, portanto, uma atitude. Era natal e a janela enorme estava lá, e ela abriu os vidros foscos e dava para ver o mar. Não teve dúvidas, escreveu um bilhete no espelho com um batom velho vermelho-cor-de-escritório que ela nunca ousou usar no trabalho: "Voo de vista para o mar, tentando me libertar deste câncer que acaba comigo”. Achou brega, mas daria muito trabalho Iimpar e reescrever. Foi novamente até a janela e pulou, sem pestanejar. Talvez tenha experimentado um leve sorriso nos lábios, apenas. Pulou do décimo andar e era natal e ela sentia dor e era sozinha e “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, tocava ao longe numa vitrola atemporal.

No seu apartamento, agora iluminado, nada: apenas o vazio, maior que antes. No banheiro, um bilhete no espelho falando de um câncer... Que câncer? Autópsia: “ausência de tumores, malignos ou benignos”. Notícias nos jornais: nenhuma. Sequer um obituário ou anúncio fúnebre. Apenas mais uma mulher sozinha pulou de um apartamento vazio na Zona Sui do Rio e era natal e os vizinhos pararam para olhar...


Mas e se essa mulher não se matasse assim?

E se ela abrisse a janela, olhasse o sol, visse o mar e resolvesse apenas dar urn mergulho? Aí, vai que ela fecha a porta, de maiô, e atravessa a rua e é atropelada. Não, é natal e, se não há suicídio, atropelamento é desperdício... Pouparia o trabalho dela e traria uma puta crise de consciência para o pobre motorista. Então, ela atravessa e pisa a areia e entra no mar e... a dor sumiu! Tomou Doril? Péssimo.

Então, talvez, esquece isso e volta para a janela aberta e ela pula e cai no toldo e não morre, só fica toda quebrada e vai para o hospital e é internada em uma clínica... Louca, completamente. Falando num câncer imaginário, sentindo a dor cada vez mais forte... Mas aí era a dor da pancada, do tombo... Suicida incompetente. Aí ela se enforca com seus lençóis... Não, meio desenho animado. Ou, de repente, vira uma artista plástica bem-sucedida, reconhecida em todo o mundo... Ou talvez, ao tentar morrer enforcada, quebra a perna... ou... morre de câncer... ou... melhor deixar como está.




sábado, 31 de março de 2012

Arteterapia, um novo caminho a trilhar

Comecei esta semana o meu curso de formação em arteterapia. Não sei o que esperar, não faço ideia do que farei com isso, mas sei que tive vontade de fazer e me pareceu uma boa experiência: leve, rica e divertida. Logo na primeira aula, nos pediram para criar uma "joia" utilizando o material disponível (contas de várias cores e tamanhos, fios...). Não tive muita dúvida em me decidir por um colar, do tipo mais simples possível. Então, peguei uma conta e decidi que ela seria o fecho.

Cortei apressadamente um pedaço de fio, medindo-o timidamente no meu pescoço. Escolhi uma pedra maior, bonita, para ficar no centro e algumas outras para ficar na lateral. Não vivi grandes dilemas, não tive insights, apenas queria terminar aquilo logo, me desincumbir da tarefa que me deram. Foi quando me dei conta de que o fio que eu havia cortado era pequeno demais. Na pressa, na ânsia de terminar logo, eu havia medido sem considerar que eu precisaria dar um nó na outra extremidade, para fechar.

Que fazer? Adaptar-se, obviamente. Cortei outro fio, de outra cor (porque o fio da cor original havia acabado), recoloquei conta por conta, dei o nó, experimentei o colar e dei meu trabalho por terminado. Não fez muita diferença terminar logo, já que eu tive que esperar todos terminarem... E fiquei sinceramente surpresa com um ou outro colar que vi surgir, em tão pouco tempo. O meu colar, embora o resultado final tenha me deixado ligeiramente orgulhosa, era tão pueril perto de alguns... Deu um misto de raiva e inveja, até, mas passou rapidinho.

Em seguida, recebi papel e caneta para escrever sobre a experiência, mas o fato é que prefiro digitar. Por isso, resolvi abrir espaço aqui no blog para o relato. Não sei se farei isso outras vezes, mas achei que valia a pena compartilhar esta primeira experiência, que me fez ver como minha cabeça funciona. Eu gosto de estabelecer objetivos, não curto andar à deriva. Mas entendi, com o tempo, que não adianta a gente ser rígido demais, porque o desfecho nem sempre é o que a gente planeja. É preciso adaptar-se. Tal qual eu fiz com o singelo fecho do meu colar.

Eis o tão falado colar... Só falta tirar foto do fecho! rs

sábado, 10 de março de 2012

Eu tenho um vício...

Sim, um vício: eu gosto de sapatos. Ok, não chego a ser nenhuma Imelda Marcos. Estou até bem longe disso... Meu vício, atualmente, está sob controle. Não tenho mais comprado tantos sapatos e tenho me esforçado para usar os que tenho. Quando percebo que não os suporto mais, que machucam meus pés ou que estão vergonhosamente caindo aos pedaços, sem mais remédio que não jogá-los no lixo ou doá-los, faço isso sem pena. E pronto.

Para me ajudar na tarefa, criei o Aos meus pés. Trata-se de um tumblr em que brinco de exibir meus sapatos e meus pés, para registrar o modelo que estou usando ou mesmo a cor do esmalte da vez. A ideia surgiu uma noite na Lapa, em conversa com a Juliana e a Mila, amiga dela. A esta última, que conheci naquele dia, devo o nome e a própria solução para o problema. Jamais esquecerei! 

O legal é que isso acabou virando uma brincadeira: volta e meia paro no meio da rua, celular em punho para fotografar meus pés. Imagino o que as pessoas não devem achar... Uso o Instagram para fotografar ou, ao menos para tratar as fotos e publicar no tumblr. Ah, a modernidade! O que seria de mim sem um iPhone e uma conexão 3G, ainda que tosca como a da Tim? Quem me viu quem me vê... rs

Desde o início, para evitar a repetição desnecessária de sapatos, busco compartilhar, também, outras imagens, vídeos, músicas e textos relacionadas a pés e/ou sapatos. Recentemente, passei a aceitar visitantes e tenho incentivado meus amigos a enviar fotos de seus próprios pés ou sapatos. Para isso, basta que os interessados me enviem suas fotos para análise. Se eu achar que vale a publicação, vai pro ar. Simples assim... Alguém se anima? ;-)

Ah!!! Hoje, meses depois da primeira publicação, é um dia histórico... É a primeira vez que repito um modelo, minha botinha da Imporium que tanto amo. A foto foi tirada em outubro, na viagem que fiz com minha prima Gê e a Elisa, autora da foto (que só agora a enviou). Afinal, estávamos na terra de Van Gogh e, na boa, minhas botas parecem inspiradas no quadro dele, não? 


Minhas botinhas, clicadas por Elisa Madi em Amsterdam (out./2011),
podem ser vistas em aqui.


Os famosos sapatos de Van Gogh. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

As manias de Dona Gatinha

Minha gata é velha. Era da minha avó, que adorava gatos e que a deixou de herança para o Flávio, que foi adotado por ela quando minha avó morreu. Ela é de 98 ou 99, não tenho certeza, e apareceu aqui ainda filhote, arredia que só. Flávio morreu, e a Gatinha não teve outro remédio que não me adotar. Me faz companhia quando estou em casa, resmunga por tudo (e eu resmungo de volta, claro). É uma faminta com TOC, pois o pote de comida precisa estar sempre cheio. E a comida deve ser constantemente sacudida. Além disso, ela exige plateia para comer. Um porre, mas tenho visto que isso é normal. Gatos são assim e, assim como nós, suas manias não melhoram com o tempo. Pioram, e muito. 

Ontem, percebi que minha gata, além de velha, é burra. Porque, ao sentir-se acuada por dois cachorrões que passavam pela rua, ela - que estava no jardim, protegida pelas grades do portão - correu na direção deles. Quase virou patê de gato na minha frente. Ninguém me contou: eu vi. E, sinceramente, não poderia culpar os cachorros caso conseguissem o intento de mordê-la. Ainda que fosse brincadeira, como sugeriu a dona deles... Ok, sei que ela estava estressada com a presença do pintor velho e surdo que está trabalhando aqui em casa, mas não consigo compreender o instinto suicida dessa gata doida. Penso que talvez seja alzheimer. Gatos também têm isso?

Creio que, com o passar dos anos, ela vem esquecendo os princípios básicos de sobrevivência... Isso, aliás, explicaria as brigas que ela vem tendo na rua com os gatos da vizinhança. Os mesmos gatos que, se invadirem minha casa para roubar a comida dela, ela é incapaz de se mexer para impedir. Vá entender uma coisa dessas... Na rua, ela é uma fera e atualmente exibe no lombo dois ferimentos de batalha. Ah! E antes que me perguntem... Sim, ela é castrada. E, não, não costumava brigar pela rua... Ah, se minha avó visse isso... Ficaria preocupadíssima!

Hoje, novamente, ela me deu provas consistentes de sua crescente inaptidão. É o seguinte: o já mencionado pintor velho e surdo tirou um banco velho do lugar. Este banco ficava na frente da casa, debaixo da janela por onde Dona Gatinha costuma sair para passear na rua. Ela sai sem problemas, mesmo sem o banco; o problema é a volta. Lady Cat, esta frajolinha anciã que está aqui do meu lado encarando a estante (como de costume) não tem mais segurança para dar grandes saltos (apesar de se meter em brigas na rua, note-se mais uma vez). Então, como ontem ela resgungomiou pra cacete antes de pular para a janela, resolvi facilitar o acesso hoje. Antes, encorajei-a a simplesmente pular como ontem. Não rolou. Por isso, saí, peguei uma cadeira e botei embaixo da janela, exatamente onde costumava ficar o banco. Ela olhou, cheirou, resmungomiou infinitamente.... E nada.

Saí novamente, ela fugiu de mim. Voltei, busquei ração e saí feito uma idiota pela rua tentando convencê-la de que sou uma pessoa legal e não estava tentando matá-la. Levou tempo. Isso porque sou eu que a alimento todos os dias, escovo o pelo dela, enfim sou mucama desta gata maluca. Mas, bem, como eu já disse lá em cima, parece que isso é assim mesmo, né? Gatos... ;-) 



Tá olhando o quê? Vai encarar?

Vem Gatinha, pode entrar...



quinta-feira, 1 de março de 2012

O bolo espatifado

O ano era 2007. Eu ia casar e andava às voltas com os preparativos da festa. Havia acabado de contratar a Kika para botar ordem no terreiro, porque logo me dei conta de que precisava de ajuda. Definitivamente, organizar uma festa para 200 pessoas e definir quem será convidado ou não é muito, muito, muito complicado. Só quem passou por algo parecido sabe como é... É aquele primo distante do seu pai que ele insiste em convidar porque, décadas atrás, chamou para o casamento de um filho. Ou aquela amiga da sua mãe que você não suporta, mas que ela faz questão de chamar. E você não pode dizer não, porque o dinheiro não está saindo do seu bolso... Um inferno.

Naquela terça-feira, eu tinha marcado uma reunião com a Kika para começarmos a definir alguns detalhes do casório, marcado para outubro. Acontece que, naquele dia, 24 de abril, Flávio completava 38 anos e aproveitaríamos também para comemorar. Eu ainda não trabalhava na CNC, mas lembro de ter ido à Casa de Espanha para ter aula à noite. A marajó ainda existia. E, se não estou embaralhando tudo, foi nesse dia que precisei trocar pela primeira vez o pneu do meu carro.

Não faço ideia de quando comprei o bolinho para o Flávio e tampouco sei se foi na Lecadô ou na Tati. Certamente, num dos dois lugares. Lembro, apenas, de sair da aula e descer para o estacionamento, onde peguei o carro e segui para a saída. Chegando lá, me dei conta de que um pneu estava vazio. Ninguém me ajudou sequer a encostar o carro. Muito menos a trocar o pneu. Meu professor passou de moto por mim, rindo, e não deu a mínima. Aliás, foi naquele momento que percebi que não valia a pena manter qualquer relação extraclasse com ele. Liguei, então, desesperada para o Flávio, que disse que estava indo para lá, mas ia demorar.

Eu já havia marcado com a Kika na Tijuca e fiquei com medo de não conseguir chegar a tempo. Então, botei mãos à massa. Flávio chegou quando eu estava terminando o serviço, bem a tempo de me ajudar com os apertões finais. Confesso que me senti meio orgulhosa. Fomos, então, encontrar a Kika no Baobá, que já nem existe mais. Creio que estávamos eu, Flávio, ela, Michelle, Jaqueline e, provavelmente, Juliana. Conversamos, cantamos parabéns, comemos bolo.

Entramos na marajó. Não lembro se todos, mas o que me faz acreditar que a Juliana estava junto é que viramos na Conde de Itaguaí e descemos a Conde de Bonfim em direção à Praça. Seria a única razão para viramos para lá, já que a Michelle mora perto de mim, a Jaque mora perto do Sesc e a Kika, no Grajaú. Na última vez em que toquei neste assunto com a Jaque, ela disse não lembrar desse dia. A Michelle também não lembra direito. Não sei a Juliana...

Bem, tudo isso é porque ontem eu estava andando a pé pela Conde de Bonfim, voltando para casa, e passei pela esquina da rua Henry Ford. Com isso, lembrei do dia em que fiz a curva com o resto do bolo do Flávio esquecido em cima do carro. Pessoas, na esquina, fizeram sinal para me alertar de que havia algo fora de lugar, mas não dei importância. Fiz a curva com vontade e só ouvimos o ploft. Levamos um tempo até identificar a origem do som. Rimos. Decidi escrever porque minha memória já não é mais a mesma e achei melhor deixar registrado. Talvez não tenha sido nada disso, talvez tenha misturado tudo... O tempo é traiçoeiro e prega peças na gente. Não importa. Deixo aqui o que lembrei. Porque o bolo era uma delicia e fiquei chateada por ele ter se espatifado no chão. Antes o tivesse deixado para os garçons.

Nem todo gato que cai da janela tem um fim tão triste
quanto o do bolo de aniversário espatifado...