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domingo, 20 de maio de 2012

Se contar, ninguém acredita!


Escrito em 5 de março de 2001.

Quando comprou a casinha no alto do morro, bem no meio da favela, o vendedor ainda disse, em tom de brincadeira, que ele estava fazendo um grande negócio, não iria se arrepender, a vizinhança era bastante silenciosa. Referia-se ao cemitério vizinho, cujo muro era logo ali à esquerda.

O sujeito só não comentou – mas é compreensível, senão seria um mau vendedor – que o silêncio igualmente era sepulcral entre os vizinhos vivos. Até porque, se não fosse assim, passariam para o lado de lá do muro, morro abaixo, e isso ninguém queria. Portanto, vivo ali era mesmo sinônimo de esperto, já que apenas estes sobreviviam. O problema estava nos que se achavam espertos... fúnebre diferença.

Infelizmente, descobriu a realidade da pior maneira. Bem que achou estranho o sumiço daquele vizinho falador, que tomava umas e outras no boteco da esquina e sumiu, de repente, sem deixar vestígios. Caiu na besteira de perguntar, procurar saber o motivo, mas ninguém dizia nada. Não conseguiu entender o que o silêncio dizia.

Se não tivesse insistido tanto, talvez não levantasse tantas suspeitas... Mas não foi o que aconteceu e sumiram com ele da mesma forma que com o outro (e outros). Só que era preciso decidir o que fazer com o defunto, como ocultar o presunto, essas coisas. Não podiam fazer o mesmo que fizeram com o anterior, pois o lugar já estava muito visado. E, além disso, era bom não despertar mais desconfianças entre os vizinhos.

Pensaram em colocá-Io no valão da esquina, ou jogar no matagal daquele terreno baldio, ou até enfiar num saco preto e colocar na caçamba de lixo. Porém, estas opções não eram nem um pouco originais e, todas, muito suspeitas.

Então, alguém teve a brilhante ideia de jogar o cadáver por cima do muro, morro abaixo. Esta solução parecia fantástica! Afinal, um morto a mais ou a menos, em um cemitério, não despertaria qualquer suspeita. Era capaz, até, de ser enterrado, mesmo que em cova rasa, como indigente. Isso seria um luxo para o morto que era, em tão baixa conta.

No cemitério: um cadáver em busca de um lugar para descansar

No dia seguinte, um funcionário vinha caminhando por uma alameda, em direção à parte nobre do cemitério. Ia carregando urn carrinho de mão cheio de ferrarnentas de jardinagem, para tratar dos pequenos jardins que as famílias faziam questão de manter próximos aos túmulos. Era de manhãzinha e tomou um susto:

— Caramba! Tem um defunto aqui!!!

Um companheiro, que estava por perto, apenas riu e disse:

— Ora, não diga! Esperava que o sujeito fosse enterrado vivo?

Então, o primeiro, ainda confuso, mas percebendo o ridículo da situação, procurou explicar melhor:

— Não, este não está enterrado! Está caído aqui no jardim da dona Rosalva ...

— Ora, como é possíve!? Será algum visitante? Ou alguém mal-morrido, enterrado por engano, e agora morto de fato?

— Olha, não sei... Não parece ter estado enterrado... As roupas estão em muito mau-estado, bem sujas, parece pobre... E tem sangue fresco! Este sujeito foi assassinado!

— Chi, deve ser coisa dessa favela barra pesada, lá no alto do morro. Precisamos chamar o chefe.

Foram os dois correndo atrás do administrador do cemitério...

A droga da obediência

O chefe estava em sua sala com ar condicionado, olhando umas revistas que fez questão de esconder (e que vão ser deixadas de lado, pois não têm nada a ver com a história). Olhou para os dois funcionários, pálidos como dois cadáveres, e não resistiu à brincadeira:

— Por que estas caras? Parece até que viram um defunto!

E deu uma sonora gargalhada, que foi interrompida imediatamente, da seguinte forma:

— Mas foi exalamente isso, doutor!

Dessa vez, quem ficou confuso foi o chefe, que não sabia o que responder:

— Mas vocês já não estão acostumados?

— Estamos, senhor... O problema é que este não está enterrado.

— Como assim não está enterrado? E por que não enterram? Afinal, vocês são pagos para isso mesmo...

— Acontece que esse foi assassinado... E está mal-vestido... E...

— Vocês estão doidos? E desde quando nós nos preocupamos com a forma como as pessoas morrem ou estão vestidas? Todos têm o mesmo direito a um enterro... Claro que uns pagam mais, outros menos, mas...

— Não, não! 0 senhor não está entendendo, este homem parece ter sido assassinado aqui dentro... – disse o primeiro funcionário.

— ... ou nas redondezas, e o corpo foi jogado aqui dentro – completou o outro.

Então, o administrador percebeu a gravidade da situação:

— Cacete! Só faltava essa: fazerem nosso cemitério de local de desova! Precisamos chamar a polícia... Mas antes é preciso ter mesmo certeza de que não é nenhum dos nossos mortos. Senão, imaginem a confusão... Em todos os jornais, a desorganização de nosso cemitério, e as famílias virão aqui querendo levar seus mortos!

E agora, José???

Todos os funcionários do cemitério foram chamados para verificarem cova por cova, gaveta por gaveta, tumúlo por tumúlo, qualquer sinal de irregularidade. 0 administrador foi com os dois funcionários ver o tal cadáver, largado bem em cima das flores da dona Rosalva.

Convenceu-se de que era um defunto desconheeido e resolveu ligar para a polícia. Então, discou o 190 para dizer:

— Olha só, sou o administrador do cemitério Caminhando nas Nuvens e estamos com um problema: apareceu por aqui um defunto. Parece ter sido morto à bala... Isolei o local onde ele está para esperar a polícia. Isso foi de manhãzinha.

— Mas o senhor já devia esperar por isso, administrando um cemitério... Não vejo por que um defunto em um cemitério seja caso de polícia.

— Porque ele foi assassinado, moça!

— Quer dizer que é assim? Foi assassinado e não enterra, só com a polícia?

— Enterrar, enterra... Mas tem o problema da papelada, ele não tem atestado de óbito. Apareceu aqui de manhã, em cima do jardim da dona Rosalva.

— E como ele foi parar aí? Quem é dona Rosalva?

— A dona Rosalva não tem nada a ver com a história... Eu não sei como o defunto veio parar aqui!

— Como não tem nada a ver? Mas ele não estava no jardim dela? Ela mora no cemitério?? Pensei que só gente morta pudesse... E como não sabe? Isso é uma total falta de organização! É assim que vocês tratam dos entes queridos de milhares de pessoas? Não têm o mínimo controle?? Ninguém assina nada?

— Moça, essa conversa está passando dos limites! É claro que somos organizados, há um enorme procedimento administrativo para enterrarmos pessoas... Mas, neste caso, o que estou tentando dizer é que estão fazendo o meu cemiterio de local de desova!!!! ...  e outra coisa: a Dona Rosalva está morta, é claro!

— Ora, por que não disse antes!? Teria poupado meu trabalho... Eu poderia mandar prendê-lo por obstruir o caminho da Justiça! Vou mandar uma viatura, imediatamente... E um rabecão... Meus sentimentos pela dona Rosalva, imagino que deva ser um choque encontrar alguém morto no jardirn e...

– Tu... tu... tu...

– Ué? Desligou! Bem que eu achei que devia ser trote...

Mais perdido do que cego em tiroteio

Melhor mesmo não chamar polícia nenhuma... O problema é que uma notícia dessas não pode se espalhar por aí... Senão, em breve, além de viaturas e policiais, rnilhares de jomalistas invadiriam o cemitério e espalhariam as mais diversas mentiras. Nisso, talvez transformassem a tal da dona Rosalva (aliás, morta há mais de 30 anos) na terrível assassina de um pobre coitado que estava dormindo em seu jardim. Não, isso não poderia acontecer jamais! Mas, o que fazer, então??

Talvez fosse o caso de enterrar o sujeito, como indigente, ficava tudo do jeito que estava e pronto. Mas, aí, quem jogou o corpo vai gostar da ideia, ver que deu certo e virar freguês. Então, o prejuízo não vai ser o de uma covinha rasa, mas de várias... Não, esta hipótese estava descartada. Colocar num mausoléu de alguma família já extinta também não podia ser, pelo mesmo motivo.

E se jogasse o corpo naquele buraco da esquina? Muito arriscado. Ou se largasse o coitado ali na porta do botequim? Também não. A polícia podia aparecer... E já pensou?? A manchete: "Administrador de cemitério desova cadáver inadimplente". Barbaridade! Isso não, péssima publicidade...

Ou, talvez, devesse queimar... Muito caro. Ou, ou... Pior que não pode demorar. Qualquer hora alguém acaba batendo com a língua nos dentes e vai todo mundo preso, como cúmplice no assassinato! Jornalista é uma praga, descobre tudo!

— Mas é claro! Só resta uma opção! Devolver o corpo para o seu local de origem, por cima do muro!!! Vocês dois vão me ajudar, afinal foram vocês que me apareceram aqui com este abacaxi! Nada mais justo que me ajudarem a me livrar dele.

O início de um triste fim...

Foi então que, na calada da noite, três vultos subiram a ladeira que levava ao muro que demarcava o fim do terreno do cemitério. Dois deles carregavam um enorme saco preto, e outro iluminava, apavorado, o eaminho. Esforçavam-se por parecer tranquilos, mas tremiam consideravelmente.

Já estavam quase chegando no muro, quando perceberam uma luz vermelha intermitente. Aproximaram-se devagar, mas um enorme clarão os cegou: um helicóptero da polícia jogava um enorme holofote bem em cima deles.

As patrulhas e camburões lotados, com suas lanternas acesas, estavam ali bem perto do muro, e eles receberam voz de prisão. Eles, sem opção, levantaram os braços, largararn o corpo morro abaixo e foram tentar se explicar... Mas que explicação dariam?

A porca torce o rabo

No dia seguinte, todos os jornais estampavam a manchete: "Polícia invade favela e desmonta esquema de cemitério clandestino. Administrador e comparsas são presos". O corpo que eles carregavam acabou sendo enterrado como indigente, por falta de quem o identificasse; seus assassinos foram presos numa cela em que havia um túnel para a favela (como sempre, essa gente não esquenta lugar na prisão); os outros moradores continuararn calados (como sempre); os policiais continuaram invadindo a favela periodicamente (para se livrar do tédio?); e o administrador e seus dois funcionários... Esperam por urn julgamento justo. Longa espera. Mas, aí, a história já é outra.





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