Pesquisar este blog

Carregando...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A vizinha, o coelho e a pipoca

Não moro em prédio. E acho super estranho o costume que as pessoas têm de cumprimentarem desconhecidos nos elevadores, nas filas, nos pontos de ônibus. Sou péssima nessa história de desejar “bom dia” para estranhos, mas sigo tentando, embora confesse que, na maior parte das vezes, meu cumprimento deva soar ininteligível, um mero grunhido. Afinal, para piorar tudo, sou tímida e sinto uma quase inveja dos despudorados que saem por aí desejando bons dias, boas tardes e boas noites a quem quer que seja. Bem, tudo isso é para tentar justificar o que muitos entendem como falta de educação.

Já melhorei bastante. Hoje, sou capaz de responder claramente ao cumprimento recebido. Se me desejam bom dia, desejo de volta. E, no trabalho, eu já falo com os ascensoristas com alguma tranquilidade... Bem, depois de mais de dois anos de trabalho, não posso considerá-los desconhecidos (mas estranhos eles são, sério!). Dou bom dia, sorrio e torço (se fosse religiosa, rezava) para não puxarem assunto comigo. É que ainda acho as conversas de elevador super constrangedoras...

Por conta desta minha tentativa de aprimorar minhas práticas sociais, há alguns anos, passei a cumprimentar uma vizinha que sempre via quando estava a caminho do ponto de ônibus. Isso fez com que, em algum momento, ela se sentisse à vontade para puxar conversa, obviamente. O pior é que, desde que a vi pela primeira vez, achei-a esquisita, com cara de maluca mesmo. A filha dela, então, me parecia um monstrinho... E o marido, ah!, esse até hoje me assusta... Psicopata define. Dos três é quem mais vejo, passeando com os cachorros, mas ele não fala comigo (yeah!).

Então, ela se apresentou (e eu não lembro o nome dela, nem de nada do que ela falou sobre si) e me perguntou uma série de coisas... Estar com ela, embora por breves momentos, sempre suscita interrogatórios ou diálogos bizarros. Como no dia em que ela me perguntou sobre meu marido e quase me abraçou quando contei que ele havia morrido. Eu nem sabia que ela sabia que eu era casada! Foi um dos momentos em que mais tive medo, sinceramente. Imagina se ela me abraça? Ai... Terror, pânico, desespero!

Teve uma noite dessas em que eu estava em casa sozinha, acho que chovia (não sei se realmente chovia ou se apenas a chuva me parece apropriada para a situação), já era razoavelmente tarde... E tocou a campainha. Não esperava ninguém e atendi meio desconfiada. Talvez fosse o vigia para me avisar que a gata estava presa em algum lugar... A rua estava escura, não dava para ver direito quem estava no portão. Então, ela falou:

 Beatriz, sou eu! Fulana! (ela falou o nome, mas eu realmente não lembro...)

Enquanto eu tentava me recobrar do susto, ela continuou:

 Será que você não quer um coelho? Olha que bonitinho (apontando para uma bola de pelo de aspecto indecifrável)... É que eu ganhei e não vou poder ficar! Lembrei de você, porque sei que você gosta de bicho...

Claro que eu disse que não, expliquei que as cachorras comeriam o coelho, mas estava tão espantada que mal conseguia falar. Fiquei com medo de que ela deixasse o tal coelho na caixa de correio ou algo assim... Mas ela entendeu e se foi, decepcionada.

Depois disso, fiquei um tempo sem vê-la. Até porque mudei de ponto de ônibus e quase não passo na porta da casa dela. Entretanto, há poucas semanas, estava eu em casa num dia de semana quando a ouvi perguntar à empregada se ela não podia fazer pipoca para ela no meu micro-ondas. É isso mesmo! Pipoca, micro-ondas. Esperta, a Nena se esquivou dizendo que não sabia mexer no aparelho e que eu não estava. Fiquei bem escondida e ela foi embora.

À noite, porém, estava eu trabalhando distraída na sala, perto da janela, quando ouço me chamarem da rua... Era ela, de novo! E com o pacote de pipoca! Gelei... Ela me perguntou se eu não podia fazer a pipoca pra ela e na minha cabeça só ecoava a voz da Nena dizendo que era abuso, que era melhor dar uma desculpa qualquer para não criar costume... Mas eu não podia dizer que não sabia mexer, né?

Bem, pedi a ela para abrir o portão, peguei o pacote, fiz a pipoca e fui até o portão para devolver. Ela me perguntou se eu não trancava o portão de fora, se as cachorras não mordiam, se eu não tinha medo de morar ali sozinha... Ficou parecendo assaltante sondando o terreno. Mais uma vez, senti medo. Espero que isso não vire um hábito. A casa ficou cheirando enjoativamente a manteiga por horas, porque a pipoca era uma tal "de cinema". Talvez da próxima vez eu diga que o micro-ondas quebrou.

Bicudinha e Balu protestam:
"Queremos um ooelho para brincar!"

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A senhorinha e o embrulho


Agradeço a Nayce Ribeiro, Patricia Sotello e Marcelo Bastos, sem os quais essa história não teria sequer começado e, brincando, me fizeram continuá-la. ;-)

A senhorinha entrou no ônibus, (sobre)carregada de bolsas, guarda-chuva e um enorme, gigante, grande mesmo, embrulho. Teve dificuldades em encontrar a bolsinha com o Riocard, mas passou pela roleta, espetando a um e outro com o tal embrulho, que era fino e comprido. Procurou não atrapalhar ninguém, não atravancar a passagem, mas o fato é que não havia como não chamar a atenção carregando um embrulho daquele porte.

Sentou-se ao lado de um rapaz que, até então, mantivera-se alheio à movimentação da idosa e do embrulho. Chegou bem para o canto e procurou não olhar mais, porque lhe parecia indelicado olhar tanto, mas a verdade é que acabava espichando o olho vez ou outra. Seu maior medo era que a senhorinha notasse sua curiosidade e decidisse entabular conversa. Afinal, velho fala pelos cotovelos... E foi nisso que o ônibus freou bruscamente.

Nada grave: o motorista trocou meia dúzia de xingamentos com um pedestre imprudente e a viagem prosseguiu tranquilamente. Tranquilamente? Com a freada e sem que a velhinha percebesse, o embrulho rasgou e deixou à mostra um pedaço do que estava lá dentro. Alguns riram da situação, mas ninguém pareceu se dar conta do que era aquilo. Exceto o rapaz, um praticante de kung fu, que identificou claramente a existência de inscrições em chinês no que parecia ser o cabo de uma espada chinesa milenar, coisa que até então ele só tinha visto em livros. O que faria ali? E, ainda por cima, nas mãos de uma senhora de aparência tão frágil...

Neste momento, a senhorinha – ainda alheia a tudo – deu-se conta, estupefata, de que carregava uma espada milenar, com misteriosas inscrições em chinês no cabo, e que estava à mostra para todos os passageiros do ônibus. Ela, que sofria de Alzheimer, não fazia ideia de como havia chegado a tal situação: ela, uma vovozinha clássica, de coque e anáguas, a personificação da Dona Benta de Monteiro Lobato ou da vovó da Chapeuzinho Vermelho, ali, carregando uma bolsa com seu tricô em uma das mãos e aquela espada na outra... 

Ficou genuinamente confusa e decidiu descer no próximo ponto. Atrapalhou-se toda com suas sacolas e a espada, cada vez mais à mostra, o que causou um misto de terror e curiosidade entre os passageiros. O rapaz ao seu lado, vendo o que se passava, decidiu oferecer ajuda, mas isso apenas a assustou ainda mais. Ela desceu em carreira desabalada assim que o ônibus abriu a porta, deixando cair um cartão da loja Rei das Facas, no centro da cidade. Correu em direção à rodoviária.

O rapaz, de posse do cartão, rodava-o entre os dedos e conjecturava distraidamente quem seria aquela senhora e o que ela fazia com aquela espada. Aquilo certamente renderia uma boa história... A revista em que trabalhava estava à beira da falência e talvez aquela fosse uma boa oportunidade de reverter a situação. Que matéria fantástica aquilo poderia render! Capa! Tão absorto estava que não notou em momento algum os olhares furtivos do trocador do ônibus em sua direção. Achou curioso que uma espada como aquela pudesse ser comprada, ainda que numa boa cutelaria. Aquilo era artigo de antiquário, de museu... Algo estava errado.

O rapaz, que agora sabemos ser um jornalista sem muitas perspectivas profissionais (infelizmente como a maioria, aliás), nem deu pela aproximação do trocador, que esbarrou nele fazendo com que o cartão caísse de suas mãos. Neste momento, cabe aqui dizer que o trocador era um senhor de olhos puxados (provavelmente chinês, mas a gente nunca tem certeza dessas coisas) e que havia reconhecido a espada. Obviamente, sabia o que estava escrito ali. Sabia de cor cada inscrição ali gravada, ele, um aprendiz de kung fu, recolhido pelos monges do Templo Shaolin em tão tenra idade. Sim, ele sabia quem era aquela senhorinha, só não podia acreditar que ela ainda estivesse viva. E ter em suas mãos aquele cartão era sua única chance de reencontrá-la. Feito isso, talvez conseguisse reaver a espada e, assim, voltar para a China como herói. 

Teve sorte ao pegar o cartão antes que o rapaz, o que lhe deu oportunidade de ler não apenas o endereço do Rei das Facas, mas o nome do vendedor anotado à mão e outro nome, em chinês, no verso. Era a pista de que precisava. Por isso, não hesitou ao devolver o cartão ao jornalista, que começava a achar bem estranho que o trocador de olhos puxados estivesse fora de seu lugar e lendo tão interessado o cartão que a senhorinha havia deixado cair. Seu instinto lhe gritava que ali tinha coisa... Resolveu, então, seguir o trocador.

Terminado o expediente, o trocador pegou suas coisas e partiu em direção a uma loja de quinquilharias, dessas que vendem coisas a partir de R$ 1,99, bem no centro da cidade. A loja já estava fechando e, lá dentro, restava apenas um senhor oriental que reconheceu nosso trocador e fechou a porta da loja. O jornalista, que o estava esperando havia horas na garagem da empresa de ônibus e que o seguia desde lá, ficou estupefato ao ver que a loja tinha uma espécie de passagem secreta, por onde entraram os dois e de onde apenas o dono da loja saiu. Perdeu o trocador de vista.

Enquanto isso, a duas quadras dali, encontramos a senhorinha tomando chá na Colombo. Sim, a mesma senhora do ônibus, com suas várias sacolas e seu misterioso embrulho refeito. Neste momento, está lúcida e sorve cada gota do chá que toma acompanhado de uma torrada Petrópolis com bastante manteiga. Analisa quais serão seus próximos movimentos. Pensa que talvez fosse melhor fundir aquela espada e sumir com ela para sempre. Lembra-se claramente da primeira vez que a empunhou, de todo o seu treinamento em kung fu e da resistência que os monges tiverem a ela, tão loira e tão aparentemente frágil.

Essas lembranças, apagadas quase que completamente por sua doença, nunca foram levadas a sério na casa de repouso em que viveu por mais de 20 anos. Ninguém podia mesmo acreditar que ela fosse o que dizia ser: a musa inspiradora que fez Quentin Tarantino filmar “Kill Bill”. Sim, era ela a Noiva, em carne osso e sangue, muito sangue. Tanto sangue que os monges acabaram por botar seu melhor aprendiz em seu encalço, mas há anos não sabia dele. Ela, que já havia concluído sua vingança, acabou indo parar num asilo quando sua filha decidiu que não conseguiria lidar com o dia a dia do Alzheimer. No início, recebia visitas praticamente diárias, mas estas foram rareando e havia anos não tinha notícias da filha. Estava só no mundo. Um dia, as contas do asilo deixaram de ser pagas e, cruelmente, ela foi posta na rua. E isso, obviamente, não poderia ficar assim!

Esta aparentemente frágil senhorinha passou a viver em abrigos e a catar latinhas para conseguir algum dinheiro. Fez tricô, crochê... Tudo que estava a seu alcance. Precisava comprar uma nova espada. Não fazia ideia do que havia acontecido com a antiga... Provavelmente, foi vendida pela filha por qualquer ninharia. Esses jovens são assim! Não sabem dar valor às antiguidades... Mas qual não foi sua surpresa ao deparar justamente com a sua espada milenar, ceifadora de tantas vidas, numa cutelaria da rua da Carioca? E a preço de banana! Apenas porque havia acumulado, nesses anos, alguma sujeira... Nada que não pudesse ser resolvido com um bom polimento. Que achado! Comprou a espada no ato, à vista, sem dar bola para o vendedor boquiaberto que a atendia.

Estava ela absorta nessas considerações quando o trocador, de quem não tínhamos notícia desde que havia sumido na loja de quinquilharias, sentou-se à sua frente. Ela o reconheceu imediatamente e apenas perguntou se ele estava servido de chá. Ele, agora vestido a caráter, aceitou uma xícara e agradeceu. Um silêncio estabeleceu-se na mesa. Como entabular conversa com a pessoa que você tenta matar há mais de 20 anos? O que dizer para aquele que lhe jurou de morte? É possível conversar civilizadamente numa situação dessas?

O trocador disse, então, para quebrar o gelo: 

— Há quanto tempo! Você vem sempre aqui?

Ao que a senhorinha apenas sorriu e disse que não, que havia muito tempo que não tinha condições financeiras de frequentar a Colombo, mas que aquela era uma data especial, de tantos reencontros, e que merecia ser celebrada. Conversaram por horas a fio e ela lhe falou de sua trajetória e de seus planos para o futuro. Disse não se incomodar em morrer, especialmente pelas mãos dele, que já lhe estavam destinadas havia tanto tempo, mas que antes precisava se vingar mais uma vez e esperava ter sua colaboração...

— Posso contar com sua ajuda, não? Depois disso, eu lhe entrego minha espada e você poderá cortar minha cabeça e cumprir as ordens que recebeu dos monges do Templo Shaolin.

Acordo feito, só não sabiam que sua conversa estava sendo ouvida não muito distante dali. Em outra mesa, o jornalista, aquele que aparentemente havia perdido de vista o trocador na loja de quinquilharias, ouvia tranquilamente toda a combinação. Decidiu que já era hora de aparecer e pedir uma exclusiva aos dois. Como moeda de troca, ofereceria ajuda para que o trocador fugisse, terminado o serviço. Ajudaria, inclusive, na vingança da velha senhora. Valia tudo para ter aquela história fantástica em suas mãos! Então, dirigiu-se à mesa em que estavam os dois idosos, pediu licença e sentou.

Não levou muito tempo para convencê-los de suas intenções e logo trataram de arquitetar todo o plano. Levaram alguns dias para acertar todos os detalhes, porque a senhorinha tinha Alzheimer e sofria graves lapsos de memória, além de estar ligeiramente enferrujada no manuseio da espada. E o trocador, embora mais ágil, também não estava exatamente no auge de sua técnica... Mas logo ficou combinado que o trocador seria levado pelo jornalista, que diria ser seu sobrinho, ao asilo. Uma vez internado, ele iria identificar quem havia sido responsável pela expulsão da senhorinha. A principal suspeita era a diretora da instituição, que seria, então, capturada e levada à presença da senhorinha vingativa, que a degolaria num só golpe de espada. 

E assim transcorreu o plano, sem maiores problemas. O trocador descobriu que a filha, responsável pelo pagamento, havia morrido atropelada (por isso deixou de visitar a mãe, logicamente) e deixado todo o seu dinheiro para o asilo, sob a condição de que cuidassem de sua mãe até sua morte. Mas de nada lhe adiantou ser tão precavida, já que a megera da diretora, tão logo pôs as mãos na grana, botou a velhinha na rua. Ou seja, ela realmente merecia morrer. E morreu, pelas mãos da mesma senhorinha que chamava de maluquinha porque dizia lutar kung fu.

Mais uma vez vingada e sabendo que não havia sido abandonada por sua filha querida, nossa senhorinha ajoelha-se e entrega sua espada milenar ao seu carrasco. Não tem mais razão para viver e é com resignação que estica o pescoço para facilitar o serviço do trocador. Seus cabelos brancos estão enrolados num coque impecável, seu rosto está sereno, olhos fechados... Então, ouve um tiro.

Abre os olhos, confusa... O jornalista acertou o trocador bem no meio da testa, matando-o instantaneamente. A espada lhe cai das mãos, bem à sua frente. Ela a agarra e espera. Não faz a mais remota ideia do que está acontecendo. O jornalista cai de joelhos aos seus pés e entrega-lhe a arma. Ele, que teria idade para ser seu bisneto, lhe declara todo o seu amor. Diz que quer viver ao seu lado e cuidar dela até o fim, e que abandonará a revista em troca dos anos (que ele sabe poucos) que viverão juntos. Ela sorri marotamente e deixa entrever, por baixo do vestido recatado, uma sexy cinta-liga onde repousa uma pequena faca.

Eles, que haviam conseguido recuperar boa parte da herança deixada pela filha da senhorinha (porque a tonta da diretora não confiava em bancos e guardava tudo debaixo do colchão), partiram rumo ao Amazonas, onde ficaram navegando para cima e para baixo, como em “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, livro de que ambos se descobriram fãs. Nos anos que se seguiram, entre muito amor e tédio, o jornalista aproveitou para fazer uma biografia de sua amada, que ele prometeu só publicar após a sua morte.




Não há limites para a imaginação.

domingo, 20 de maio de 2012

Se contar, ninguém acredita!


Escrito em 5 de março de 2001.

Quando comprou a casinha no alto do morro, bem no meio da favela, o vendedor ainda disse, em tom de brincadeira, que ele estava fazendo um grande negócio, não iria se arrepender, a vizinhança era bastante silenciosa. Referia-se ao cemitério vizinho, cujo muro era logo ali à esquerda.

O sujeito só não comentou – mas é compreensível, senão seria um mau vendedor – que o silêncio igualmente era sepulcral entre os vizinhos vivos. Até porque, se não fosse assim, passariam para o lado de lá do muro, morro abaixo, e isso ninguém queria. Portanto, vivo ali era mesmo sinônimo de esperto, já que apenas estes sobreviviam. O problema estava nos que se achavam espertos... fúnebre diferença.

Infelizmente, descobriu a realidade da pior maneira. Bem que achou estranho o sumiço daquele vizinho falador, que tomava umas e outras no boteco da esquina e sumiu, de repente, sem deixar vestígios. Caiu na besteira de perguntar, procurar saber o motivo, mas ninguém dizia nada. Não conseguiu entender o que o silêncio dizia.

Se não tivesse insistido tanto, talvez não levantasse tantas suspeitas... Mas não foi o que aconteceu e sumiram com ele da mesma forma que com o outro (e outros). Só que era preciso decidir o que fazer com o defunto, como ocultar o presunto, essas coisas. Não podiam fazer o mesmo que fizeram com o anterior, pois o lugar já estava muito visado. E, além disso, era bom não despertar mais desconfianças entre os vizinhos.

Pensaram em colocá-Io no valão da esquina, ou jogar no matagal daquele terreno baldio, ou até enfiar num saco preto e colocar na caçamba de lixo. Porém, estas opções não eram nem um pouco originais e, todas, muito suspeitas.

Então, alguém teve a brilhante ideia de jogar o cadáver por cima do muro, morro abaixo. Esta solução parecia fantástica! Afinal, um morto a mais ou a menos, em um cemitério, não despertaria qualquer suspeita. Era capaz, até, de ser enterrado, mesmo que em cova rasa, como indigente. Isso seria um luxo para o morto que era, em tão baixa conta.

No cemitério: um cadáver em busca de um lugar para descansar

No dia seguinte, um funcionário vinha caminhando por uma alameda, em direção à parte nobre do cemitério. Ia carregando urn carrinho de mão cheio de ferrarnentas de jardinagem, para tratar dos pequenos jardins que as famílias faziam questão de manter próximos aos túmulos. Era de manhãzinha e tomou um susto:

— Caramba! Tem um defunto aqui!!!

Um companheiro, que estava por perto, apenas riu e disse:

— Ora, não diga! Esperava que o sujeito fosse enterrado vivo?

Então, o primeiro, ainda confuso, mas percebendo o ridículo da situação, procurou explicar melhor:

— Não, este não está enterrado! Está caído aqui no jardim da dona Rosalva ...

— Ora, como é possíve!? Será algum visitante? Ou alguém mal-morrido, enterrado por engano, e agora morto de fato?

— Olha, não sei... Não parece ter estado enterrado... As roupas estão em muito mau-estado, bem sujas, parece pobre... E tem sangue fresco! Este sujeito foi assassinado!

— Chi, deve ser coisa dessa favela barra pesada, lá no alto do morro. Precisamos chamar o chefe.

Foram os dois correndo atrás do administrador do cemitério...

A droga da obediência

O chefe estava em sua sala com ar condicionado, olhando umas revistas que fez questão de esconder (e que vão ser deixadas de lado, pois não têm nada a ver com a história). Olhou para os dois funcionários, pálidos como dois cadáveres, e não resistiu à brincadeira:

— Por que estas caras? Parece até que viram um defunto!

E deu uma sonora gargalhada, que foi interrompida imediatamente, da seguinte forma:

— Mas foi exalamente isso, doutor!

Dessa vez, quem ficou confuso foi o chefe, que não sabia o que responder:

— Mas vocês já não estão acostumados?

— Estamos, senhor... O problema é que este não está enterrado.

— Como assim não está enterrado? E por que não enterram? Afinal, vocês são pagos para isso mesmo...

— Acontece que esse foi assassinado... E está mal-vestido... E...

— Vocês estão doidos? E desde quando nós nos preocupamos com a forma como as pessoas morrem ou estão vestidas? Todos têm o mesmo direito a um enterro... Claro que uns pagam mais, outros menos, mas...

— Não, não! 0 senhor não está entendendo, este homem parece ter sido assassinado aqui dentro... – disse o primeiro funcionário.

— ... ou nas redondezas, e o corpo foi jogado aqui dentro – completou o outro.

Então, o administrador percebeu a gravidade da situação:

— Cacete! Só faltava essa: fazerem nosso cemitério de local de desova! Precisamos chamar a polícia... Mas antes é preciso ter mesmo certeza de que não é nenhum dos nossos mortos. Senão, imaginem a confusão... Em todos os jornais, a desorganização de nosso cemitério, e as famílias virão aqui querendo levar seus mortos!

E agora, José???

Todos os funcionários do cemitério foram chamados para verificarem cova por cova, gaveta por gaveta, tumúlo por tumúlo, qualquer sinal de irregularidade. 0 administrador foi com os dois funcionários ver o tal cadáver, largado bem em cima das flores da dona Rosalva.

Convenceu-se de que era um defunto desconheeido e resolveu ligar para a polícia. Então, discou o 190 para dizer:

— Olha só, sou o administrador do cemitério Caminhando nas Nuvens e estamos com um problema: apareceu por aqui um defunto. Parece ter sido morto à bala... Isolei o local onde ele está para esperar a polícia. Isso foi de manhãzinha.

— Mas o senhor já devia esperar por isso, administrando um cemitério... Não vejo por que um defunto em um cemitério seja caso de polícia.

— Porque ele foi assassinado, moça!

— Quer dizer que é assim? Foi assassinado e não enterra, só com a polícia?

— Enterrar, enterra... Mas tem o problema da papelada, ele não tem atestado de óbito. Apareceu aqui de manhã, em cima do jardim da dona Rosalva.

— E como ele foi parar aí? Quem é dona Rosalva?

— A dona Rosalva não tem nada a ver com a história... Eu não sei como o defunto veio parar aqui!

— Como não tem nada a ver? Mas ele não estava no jardim dela? Ela mora no cemitério?? Pensei que só gente morta pudesse... E como não sabe? Isso é uma total falta de organização! É assim que vocês tratam dos entes queridos de milhares de pessoas? Não têm o mínimo controle?? Ninguém assina nada?

— Moça, essa conversa está passando dos limites! É claro que somos organizados, há um enorme procedimento administrativo para enterrarmos pessoas... Mas, neste caso, o que estou tentando dizer é que estão fazendo o meu cemiterio de local de desova!!!! ...  e outra coisa: a Dona Rosalva está morta, é claro!

— Ora, por que não disse antes!? Teria poupado meu trabalho... Eu poderia mandar prendê-lo por obstruir o caminho da Justiça! Vou mandar uma viatura, imediatamente... E um rabecão... Meus sentimentos pela dona Rosalva, imagino que deva ser um choque encontrar alguém morto no jardirn e...

– Tu... tu... tu...

– Ué? Desligou! Bem que eu achei que devia ser trote...

Mais perdido do que cego em tiroteio

Melhor mesmo não chamar polícia nenhuma... O problema é que uma notícia dessas não pode se espalhar por aí... Senão, em breve, além de viaturas e policiais, rnilhares de jomalistas invadiriam o cemitério e espalhariam as mais diversas mentiras. Nisso, talvez transformassem a tal da dona Rosalva (aliás, morta há mais de 30 anos) na terrível assassina de um pobre coitado que estava dormindo em seu jardim. Não, isso não poderia acontecer jamais! Mas, o que fazer, então??

Talvez fosse o caso de enterrar o sujeito, como indigente, ficava tudo do jeito que estava e pronto. Mas, aí, quem jogou o corpo vai gostar da ideia, ver que deu certo e virar freguês. Então, o prejuízo não vai ser o de uma covinha rasa, mas de várias... Não, esta hipótese estava descartada. Colocar num mausoléu de alguma família já extinta também não podia ser, pelo mesmo motivo.

E se jogasse o corpo naquele buraco da esquina? Muito arriscado. Ou se largasse o coitado ali na porta do botequim? Também não. A polícia podia aparecer... E já pensou?? A manchete: "Administrador de cemitério desova cadáver inadimplente". Barbaridade! Isso não, péssima publicidade...

Ou, talvez, devesse queimar... Muito caro. Ou, ou... Pior que não pode demorar. Qualquer hora alguém acaba batendo com a língua nos dentes e vai todo mundo preso, como cúmplice no assassinato! Jornalista é uma praga, descobre tudo!

— Mas é claro! Só resta uma opção! Devolver o corpo para o seu local de origem, por cima do muro!!! Vocês dois vão me ajudar, afinal foram vocês que me apareceram aqui com este abacaxi! Nada mais justo que me ajudarem a me livrar dele.

O início de um triste fim...

Foi então que, na calada da noite, três vultos subiram a ladeira que levava ao muro que demarcava o fim do terreno do cemitério. Dois deles carregavam um enorme saco preto, e outro iluminava, apavorado, o eaminho. Esforçavam-se por parecer tranquilos, mas tremiam consideravelmente.

Já estavam quase chegando no muro, quando perceberam uma luz vermelha intermitente. Aproximaram-se devagar, mas um enorme clarão os cegou: um helicóptero da polícia jogava um enorme holofote bem em cima deles.

As patrulhas e camburões lotados, com suas lanternas acesas, estavam ali bem perto do muro, e eles receberam voz de prisão. Eles, sem opção, levantaram os braços, largararn o corpo morro abaixo e foram tentar se explicar... Mas que explicação dariam?

A porca torce o rabo

No dia seguinte, todos os jornais estampavam a manchete: "Polícia invade favela e desmonta esquema de cemitério clandestino. Administrador e comparsas são presos". O corpo que eles carregavam acabou sendo enterrado como indigente, por falta de quem o identificasse; seus assassinos foram presos numa cela em que havia um túnel para a favela (como sempre, essa gente não esquenta lugar na prisão); os outros moradores continuararn calados (como sempre); os policiais continuaram invadindo a favela periodicamente (para se livrar do tédio?); e o administrador e seus dois funcionários... Esperam por urn julgamento justo. Longa espera. Mas, aí, a história já é outra.