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domingo, 10 de abril de 2005

É possível ser feliz...

Dia desses, fui ao shopping. Confesso não ser, este, meu habitat natural. Não consigo mesmo conceber como há quem ame shoppings centers. Para mim, soa bastante desagradável esbarrar em milhares de pessoas e ficar imersa naquele burburinho constante. Principalmente, nos fins-de-semana, quando parece não existir outras opções de lazer disponíveis pela cidade. Senão, como explicar a enorme quantidade de adolescentes que perambulam pelos corredores em pleno sábado à noite? Falta de segurança nas ruas? Talvez... Mas será apenas isso?

Estava lá, com o Rodrigo, à espera de um amigo. Não podia olhar as vitrines, sob pena de me desencontrar do Rafael. Isso só faria prolongar minha permanência no shopping, portanto tratei de ficar bem à vista. No terceiro piso, parada ao lado de uma pilastra, debrucei-me sobre a grade que dava para o interior do shopping. Passei a observar as pessoas e, especialmente, as crianças que brincavam nos três bungee jumps do primeiro piso. Pareciam estar se divertindo.

Foi então que a vi. Aguardando sua vez, estava uma menina gordinha, branquela, de cabelo preto, liso e comprido. Meu primeiro sentimento foi um misto de pena e orgulho, porque ela era gorda e ia se aventurar naquele brinquedo de elásticos, onde crianças esquálidas estavam brincando... Mas sei que ser gorda em um mundo de magros é muito difícil. Aquela criança era eu. E não conseguia deixar de olhá-la.

Fiz com que o Rodrigo também prestasse atenção na menina. Ficamos lá, os dois, acompanhando cada movimento. Vimos quando o responsável pelo brinquedo trouxe um cinto e tentou prendê-la. Era pequeno. Ele saiu em busca de outro, mas a menina nem se abalou. Chamava atenção o seu sorriso, de orelha a orelha. Parecia não se importar com nada disso. Deixou-se amarrar com o outro cinto e ficou lá, esperando sua vez. Vez ou outra, virava-se para a mãe e dava um tchauzinho. Era a própria celebridade.

Finalmente, chegou sua vez. Aos saltos, subiu no brinquedo. Deixou-se prender ao elástico e começou a ser içada. O responsável a puxou, para largá-la em seguida. E ela foi até o alto e começou a cair. O sorriso permanecia inabalável e parece ter contagiado o sujeito que ficava ali para lhe dar impulso. Ele passou a pular junto com ela e a menina, cada vez mais sorridente, começou a balançar as perninhas a cada descida. E tremia toda, como num gozo. Era gostoso de ver. Ela era gorda e estava feliz. E a mãe também sorria.

A brincadeira acabou. A menina saiu do brinquedo tão sorridente como no início, completamente descabelada. Mãe e filha seguiram seu caminho pelo shopping. Eu e Rodrigo nos olhávamos, meio em transe, já sem palavras para comentar o que tinhámos visto. O Rafael chegou com a namorada. Não comentamos nada. O assunto morreu. Entretanto, ficou a certeza de que aquele foi um momento único. E o shopping, outrora tão assustador, de repente ganhou uma certa magia. Mas ainda assim não consigo entender o porquê de lá haver tanta gente. É uma pena, mas felicidade (como a da menina) é coisa que dá e passa.

Um comentário:

Lucas disse...

Bia, adorei e simplesmente reitero nosso maravilhoso papo e nosso Guinmarães : ´Felicidade se acha é em horinhas de descuido´.