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sábado, 7 de abril de 2012

Conto de natal

Escrito em 28 de dezembro de 1998

Aquela mulher sim sentia dor, intrínseca. Uma dessas dores que secam as tripas, ressecam o ventre e não explicam o porquê. Doía na profundeza de suas entranhas e um grito mudo rasgava sua garganta e engasgava em soluço seco, sôfrego, delirante.

Mas não havia explicação e ela era apenas mais uma mulher em um quarto úmido a sentir dor. Uma entre milhares espalhadas pela cidade, ou talvez pelo bairro. Quem sabe no mesmo prédio não havia mais uma, semelhante?

Era natal e era uma mulher e era sozinha e o quarto vazio era úmido e escuro, apesar da grande janela com vista para o mar em plena Zona SuI do Rio de Janeiro. Tantos gostariam tanto de uma janela assim para ver o mar! Tantos se satisfariam com tão pouco. Pouco?

Aquela mulher já não via o mar, os vidros da janela eram foscos. A luz do sol incomodava tanto pela manhã! Maresia com cheiro de mofo. E os vizinhos de elevador, cachorro em punho, bicicleta a postos... eram tão felizes... Horas ao cair da tarde tomando água de coco nos quiosques da orla e ela nunca foi sequer convidada. Gente metida. De certa forma era bom manter distância, sem fofocas, preservar sua privacidade. Assim ninguém nem chegava perto. Por falta de coragem?

E era natal. Quando menina chegou a ganhar alguns presentes, mas começou a trabalhar, e trabalhar era importante. Sua família era pequena, até que acabaram morrendo, era o natural. E ela não comprava presentes, não tinha mesmo para quem dá-Ios. Nada ganhava, tampouco. Também, de quem ganharia? Mais urn natal, e nem o carteiro passava pedindo a caixinha de natal.

Alias, não fossem o porteiro e a faxineira aparecerem vez ou outra, capaz de pensarem que o apartamento estava vazio. Todo fim de semana era a mesma coisa, viva o desespero dos que dependem da tv. E agora, um mês inteiro: férias enlouquecedoras. Antes passar o dia inteiro fazendo contas em uma sala gelada. Ganhava bern, era competentíssima. Mas não tinha trabalho no fim de ano. Então... férias.

Havia já uma semana, a dor era insuportável. E nenhum médico explicava direito e ela não explicava também direito a nenhum deles. Onde doía? Ela não saberia responder. Os médicos, então vinham com uma história de análise, essas besteiras, e ela nunca tentou. Um médico um dia descobriria a verdade. Afinal, obviamente, ela devia ter era câncer... Sim... Câncer? Lógico, só podia ser câncer! Aquela tia velha tinha mesmo morrido de câncer. Mas, então, não havia mais jeito... Ela ia morrer logo, tinha câncer.

Tomou, portanto, uma atitude. Era natal e a janela enorme estava lá, e ela abriu os vidros foscos e dava para ver o mar. Não teve dúvidas, escreveu um bilhete no espelho com um batom velho vermelho-cor-de-escritório que ela nunca ousou usar no trabalho: "Voo de vista para o mar, tentando me libertar deste câncer que acaba comigo”. Achou brega, mas daria muito trabalho Iimpar e reescrever. Foi novamente até a janela e pulou, sem pestanejar. Talvez tenha experimentado um leve sorriso nos lábios, apenas. Pulou do décimo andar e era natal e ela sentia dor e era sozinha e “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, tocava ao longe numa vitrola atemporal.

No seu apartamento, agora iluminado, nada: apenas o vazio, maior que antes. No banheiro, um bilhete no espelho falando de um câncer... Que câncer? Autópsia: “ausência de tumores, malignos ou benignos”. Notícias nos jornais: nenhuma. Sequer um obituário ou anúncio fúnebre. Apenas mais uma mulher sozinha pulou de um apartamento vazio na Zona Sui do Rio e era natal e os vizinhos pararam para olhar...


Mas e se essa mulher não se matasse assim?

E se ela abrisse a janela, olhasse o sol, visse o mar e resolvesse apenas dar urn mergulho? Aí, vai que ela fecha a porta, de maiô, e atravessa a rua e é atropelada. Não, é natal e, se não há suicídio, atropelamento é desperdício... Pouparia o trabalho dela e traria uma puta crise de consciência para o pobre motorista. Então, ela atravessa e pisa a areia e entra no mar e... a dor sumiu! Tomou Doril? Péssimo.

Então, talvez, esquece isso e volta para a janela aberta e ela pula e cai no toldo e não morre, só fica toda quebrada e vai para o hospital e é internada em uma clínica... Louca, completamente. Falando num câncer imaginário, sentindo a dor cada vez mais forte... Mas aí era a dor da pancada, do tombo... Suicida incompetente. Aí ela se enforca com seus lençóis... Não, meio desenho animado. Ou, de repente, vira uma artista plástica bem-sucedida, reconhecida em todo o mundo... Ou talvez, ao tentar morrer enforcada, quebra a perna... ou... morre de câncer... ou... melhor deixar como está.




2 comentários:

Fárida Pires disse...

Eu gostei muito do primeiro final...hahahah

Beatriz Fontes disse...

É o que vale... rs Mas é sempre bom perceber que existem opções. ;-)