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domingo, 5 de setembro de 2010

Diálogo insólito no trajeto Carioca-Saens Peña

Sexta-feira, vivi uma situação insólita. A coisa aconteceu assim: estava eu, com fones de ouvido, de pé no vagão feminino. Ao chegarmos à Central, vagou um lugar e sentei. Peguei o livro que estou lendo e tentei me concentrar na leitura, que não é nada fácil. [Estou apanhando para entender o inglês de The sound and the fury, do William Faulkner, que encontrei na minha estante. Achei que estava há muito sem praticar o idioma e que este seria um bom treino.]

 Considerada a obra-prima de Faulkner,
deve ser difícil em qualquer língua... Mas agora fiquei curiosa!

Pois bem, estava absorta na leitura. Ao chegarmos à Afonso Pena, a pessoa que estava ao meu lado levantou e eu aproveitei para escorregar para a janela. Afinal, sempre pode haver alguém cansado, disposto a sentar-se por duas estações, certo? E havia. Assim que cheguei para o canto, alguém correu para sentar e o trem seguiu viagem. Logo senti um cutucão no braço. Virei-me para ver o que era e percebi que a mulher ao lado falava algo que eu não escutava por conta dos fones. Educadamente, tirei o fone, pensando que devia ser algo importante, afinal, ninguém interrompe a leitura de um desconhecido no metrô, não? Ainda mais se a pessoa está com fones no ouvido, sinal claro de que não está disponível para conversa... 

Ledo engano. Segue o diálogo insólito:

— Você faz inglês?

Ainda confusa, respondi:

— Não... Como assim?

— Você está lendo em inglês, né?

— Sim – disse, pensando que deveria ter respondido que não, aquilo ali era russo.

— Você sabe inglês? – ela perguntou.

— Sei – respondi educadamente, pensando que bem que poderia ter dito que não, que estava com aquele livro aberto apenas para "tirar onda" no metrô.

— Você aprendeu sozinha? – eu juro que quase tive um treco quando percebi o rumo que a conversa ia tomando, mas me contive.

— Não, eu fiz curso, mas já faz muito tempo – respirei fundo.

— Foi difícil? – really, ela interrompeu minha leitura para fazer este interrogatório?

— Bem, foram sete anos na Cultura Inglesa. Fácil, não foi – aí, eu já estava conformada e até achando divertido, pensando que finalmente teria algo para contar aqui no blog e, por isso, emendei:

— Espanhol é mais fácil.

Ela pegou a isca:

— Espanhol se aprende no susto, né?

— Não é bem assim, espanhol engana. Acho que é mais fácil para nós, brasileiros, apenas porque compartilhamos muito vocabulário e muitas das estruturas gramaticais, mas isso às vezes até atrapalha.

— Ah, eu tive uma professora de espanhol fantástica (ela era realmente fantástica!) que dizia que, se a gente chegasse lá [imagino que na Espanha ou em algum outro país de fala hispânica, ela não foi clara] sem saber falar direito a língua, eles tentavam ajudar como aqui.

Eu não resisti e ri. Imaginei um espanhol ou argentino, em geral famosos pela impaciência, tentando entender um turista perdido que acha que fala espanhol. Respondi:

— Aí, depende de quem você encontrar pela frente... Nem todos têm essa boa vontade. Só no Brasil mesmo – e eu era a prova viva disso, já que havia enveredado por aquela conversa por não saber cortá-la – as pessoas estão sempre dispostas a dar tanta informação.

— É verdade, né? No Brasil, a gente sempre tenta ajudar...

Ri, de novo, já me preparando para pôr novamente o fone no ouvido, mas ela ainda atacou:

— Mas a língua mais difícil do mundo é o português, né?

— Não, a mais difícil é aquela que a gente não consegue aprender – eu detesto ouvir isso, acho uma grande bobagem, já que todo nativo (exceto, talvez os que tenham pendores gramaticais) de qualquer idioma costuma ter a sensação de que não domina completamente sua própria língua e, no entanto, comunica-se perfeitamente por meio dela.

— É verdade... E ainda tem quem fale várias línguas, né?

Balancei a cabeça afirmativamente e sorri. De novo, achei que conseguiria pelo menos voltar a ouvir música, mas ela não me largou: 

— Você é professora?

Aí, me resignei de verdade... Marquei a página do livro, desliguei o ipod e torci para chegarmos logo à Saens Peña, embora com algum receio de que ela me seguisse. Respondi, secamente:

— Não – imaginem se respondo que já fui, e de português, literatura e redação?

— O que você faz?

— Sou jornalista.

Noto um breve assombro, uma pausa, quase uma veneração:

— Ah! E quantas línguas você precisa saber para ser jornalista?

Preciso? Como assim preciso? Acho que devia responder que preciso saber mesmo é português, mas entendo que é uma batalha perdida... E, com isso, digo apenas:

— Ah, quanto mais melhor...

— Quantas você sabe?

— Estrangeiras? Inglês e espanhol – e, nisso, o trem chegou na estação, levantamos, dei tchau e saí pelo lado oposto ao que ela ia, mas sempre olhando para trás, apavorada pela ideia de que talvez ela pudesse me perguntar mais alguma coisa.

Antes que me perguntem (como já o fizeram), não, ela não era velha. Não era muito jovem, mas talvez não tivesse nem 50 anos. E, sim, tinha cara de maluca. Eu mereço. Penso que talvez tenha sido mais salutar (para mim) dar trela, bater palmas para ela dançar. Afinal, vai que ela se irritava comigo, sei lá.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O dia da morte de Saramago

Sexta-feira passada, 18 de junho, tomei um susto. Morreu o escritor José Saramago. Sim, sei que estava idoso e que a saúde já vinha dando sinais de alerta, mas não estava preparada. Achava, ainda, que haveria mais uns dois ou três romances inéditos dele. Juro. Não esperava nenhuma obra-prima, é verdade... Até porque, a meu ver, Saramago foi pródigo em obras-primas. Ok, a rigor, só pode haver uma "prima", mas eu jamais pude me decidir. Se bem que, na verdade, tenho sim o meu "saramagozinho" preferido: Todos os nomes. Para mim, esse é o melhor de todos.

 Se é preciso escolher, fico com este

O personagem José, simplesmente José, como o do poema de Drummond (com o qual o romance parece dialogar o tempo inteiro), é de uma beleza singela. Ele é um simples escriturário de uma espécie de cartório português. Seu passatempo, no início da história, é colecionar fotos e informações sobre famosos. Entretanto, em determinado momento, a vida de uma mulher anônima lhe chama a atenção e ele deixa as celebridades de lado, passando a colecionar dados de anônimos, resgatados da burocracia do dito Registo Civil. Nas palavras do autor: "Que este romance possa ser entendido como um ensaio sobre a existência - talvez. [....] Que o livro possa ser visto como uma indagação sobre a identidade, sim, mas não sobre a identidade própria. O que aqui se procura é o 'outro'".

Não preciso nem dizer que recomendo deveras a leitura deste livro. Desde que o li, tento convencer meus amigos leitores de que este é um livro essencial. Infelizmente, jamais encontrei alguém que quisesse, principalmente, debater a questão identitária proposta por Saramago neste livro. Quem sabe agora? Creio que aproveitarei o ensejo, já que não haverá novos romances do Saramago, para reler este livro. E aí? Alguém me acompanha? ;-)

Deixo aqui uma crónica "drummondiana" de Saramago, pouco conhecida, publicada no seu livro A bagagem do viajante:



“E agora, José?”


Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade acompanha-me desde que nasci, por desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora, José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou o que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: “E agora, José?”

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente – “E agora, José?”

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota – matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. “E agora, José?”

(in: SARAMAGO, José. A bagagem do viajante. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 5. ed. p. 33-35)



PS: Fica aqui minha homenagem não só a Saramago, mas a meus saudosos avós Arivaldo Fontes e Murillo Andrade, igualmente "marcados" pelo dia 18 de junho. O primeiro, nascido em 18 de junho de 1923. O segundo, falecido em outro 18 de junho, de 2002. Que suas histórias de vida sobrevivam aos labirintos da burocracia, na memória de seus descendentes.

quinta-feira, 2 de junho de 2005

E as legendas não me deixam em paz...


O escritor João Ubaldo Ribeiro,
em Língua - Vidas em Português


No post anterior, escrevi sobre o incômodo que me causa a legendagem em filmes – geralmente, nos portugueses, mas também em documentários brasileiros que misturam os diversos falares, como “Janela da Alma” e “Língua – Vidas em Português” – e gostaria de voltar ao assunto. Sei que corro o risco de soar repetitiva e talvez os poucos leitores que tenho já não agüentem mais minhas reclamações a respeito. Entretanto, penso que ainda há algo a ser dito e espero conseguir me fazer entender.

O que me faz retomar este tema é o seguinte: estamos viciados em legendas. A maior parte da produção cinematográfica a que temos acesso é estrangeira e, principalmente, norte-americana. Achamos naturalíssimo ouvir o inglês e, tempos atrás, dada a baixa qualidade técnica dos filmes nacionais, muitos torciam o nariz para as produções brasileiras. O som era péssimo, quase inaudível, o que tornava o filme por vezes incompreensível. Lembro de um filme com o Evandro Mesquita (e do qual já nem lembro o título) em que, durante a exibição, tive ímpetos de levantar e ir embora. Não entendia nada do que ele dizia! Tá bom, alguns vão dizer que a dicção do Evandro Mesquita não é das melhores, mas não vamos exagerar! Aquele filme bem que merecia umas legendas...

Entretanto, mesmo hoje, com toda a melhoria técnica, recentemente tive problemas em entender o que era dito em um filme brasileiro: “Copacabana”. Tentava assisti-lo em dvd, mas o som era péssimo! Então, pensei em apelar para as legendas. Procurei no menu e só encontrei duas opções: inglês e espanhol. Acontece que um dos argumentos a favor das legendas é que elas permitem que deficientes auditivos compreendam o filme. Ora, nesse caso, só se forem poliglotas.

Aliás, esse papo de que as legendas ampliam o alcance dos filmes é uma tremenda mentira. Ainda mais em um país como o Brasil, onde a maior parte da população é analfabeta e sequer tem dinheiro para ir ao cinema. Se fosse por uma questão de clareza, todos os filmes estrangeiros deveriam ser dublados, então. É assim nos Estados Unidos, país ao qual parecemos seguir e obedecer cegamente... Entretanto, por motivos bastante diversos. Lá, a opção pela dublagem se dá, em parte, pela falta de costume de se ouvir qualquer coisa diferente do inglês. É algo meio "bairrista" mesmo. Mas será que eles dublam os filmes escoceses, australianos, irlandeses, ingleses...?

Já aqui, a opção pelas legendas parece vir da idéia de que estas interferem menos na obra. E nisso eu concordo. É notório que toda tradução é uma reinvenção do original. Não importa se na literatura, ou no cinema. Então, as legendas permitem que o espectador acompanhe as inflexões de voz dos atores, entre outras sutilezas. Por outro lado, fica claro o quanto somos uns colonizados. O inglês é nossa segunda língua e, mesmo quem não entende patavina, gosta de dizer que o som original é melhor etc. Mas, e nos filmes falados em português? Qual a justificativa para as legendas? E, admitindo que estas sejam necessárias, por que não transcrever – palavra por palavra – o que é dito no filme? Isso, realmente, parece que continuarei sem entender...

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Legendas em filmes portugueses:

clareza ou intolerância?



Maria de Medeiros, em
"Capitães de Abril"


Desde que me admiti cinéfila e voltei a freqüentar as salas de exibição (sempre sem as pipocas, é bom ressaltar!), venho escrevendo sobre cinema. Meus últimos dois posts eram bastante específicos e abordavam basicamente o cinema português. Ao sair da sessão de "Um filme falado", no Arteplex, me peguei tentando lembrar que outro filme realizado por Manoel de Oliveira eu havia visto no cinema. E, mesmo tendo acesso a toda a filmografia dele, não consegui lembrar! Mas sei que já assisti a algo, o que terá sido? Passei, então, a tentar resgatar na memória outros filmes portugueses...

O resultado: com exceção do tal "Mortinho por chegar a casa" (ao qual me referi no post anterior), só lembrei de "Capitães de Abril", realizado pela também atriz Maria de Medeiros. Trata-se de um bom filme, através do qual podemos conhecer um pouco do contexto em que se deu a famosa Revolução dos Cravos, que pôs fim a um perído ditatorial que teve início com Salazar. O tema, abordado de forma poética, é de fácil assimilação pelo espectador brasileiro. Afinal, de ditaduras nosso povo entende bem. Embora, infelizmente, de revoluções nem tanto... Mas, assistindo ao filme, percebemos que tampouco os portugueses! Aos poucos, percebemos o quanto somos parecidos, ao mesmo tempo em que somos diferentes.

Já que falei em diferença, há algo que me incomoda muitíssimo ao assistir a filmes portugueses no cinema: as legendas. Elas me confundem demais! Entendo que elas sejam necessárias, afinal, o brasileiro não está acostumado à diversidade de falares de sua própria língua. Nossos sotaques regionais, muitas vezes, são motivo de riso e logo viram piada. O eixo Rio-São Paulo impõe, pouco a pouco, uma modalidade padrão (carioca?) que faz com que os locutores de rádio e apresentadores de TV utilizem, todos, um falar uniforme. Penso que, se não conseguimos respeitar e compreender nossas diferenças locais, imagine então quando estas vêm de além-mar!

Entretanto, como exigir do brasileiro que entenda seu próprio idioma quando falado em Portugal e nas antigas colônias, como o Timor, Moçambique ou Cabo Verde? Por vezes, nem parece a mesma língua! Tudo culpa do isolamento em que nos mantivemos por tanto tempo e para o qual contribuíram as ditaduras, de lá e de cá, em que estivemos mergulhados por anos. Formou-se uma barreira cultural e, para transpô-la, só se investirmos em eventos que promovam o intercâmbio, a integração... Mas eu não tive notícias de uma nova edição do Encontro com Portugal ao qual já me referi em outro post. Alguém teve?

Além do mais, sinceramente, tenho minhas dúvidas se as tais legendas ajudam. Afinal, com a desculpa de tornar o filme compreensível para todos, elas acabam por “abrasileirar” os diálogos. Então, o que se lê não é o mesmo que se ouve. E isso, para mim, é uma tremenda falta de respeito... Respondendo à pergunta do título: intolerância pura.

terça-feira, 31 de maio de 2005

Minha relação com o cinema português



Desde que assisti ao último filme do Manoel de Oliveira, sobre o qual comentei no post anterior, venho tentando descobrir um jeito de manter-me a par da produção cinematográfica de além-mar. Tarefa difícil. A internet ajuda, no sentido de encontrar as fichas técnicas e demais informações, porém não faço idéia de como assistir aos filmes propriamente ditos. Então, só me resta esperar pela boa vontade dos programadores das salas e aguardar novas oportunidades.

Sempre me interessei pela cultura portuguesa. Sou curiosa por natureza. Mas admito que sofro de uma curiosidade quase doentia a respeito de tudo o que se refere às culturas que deram origem ao que chamamos cultura brasileira, na qual estou mergulhada. Entretanto, o que busco não é o que está nos livros de História. Tenho sede de troca, de intercâmbio. Daí a vontade de conhecer um pouco do que se faz, hoje, na "terrinha" e, também, nas ex-colônias. O pouco que conheço desse mundo lusófono extra-brasileiro, devo à minha formação em Letras, que me proporcionou o contato com autores como o português Saramago, o angolano Pepetela, a descoberta de uma língua galega e, já na pós-graduação, uma visão do Timor Leste.

Entretanto, meu primeiro contato com o cinema português só veio a acontecer em 98 (no Encontro com Portugal, ocorrido em Niterói), quando pude ver de perto várias vertentes da cultura portuguesa contemporânea. Naquela época, ainda estudante de Letras, lembro da sensação de descobrir um mundo todo novo, falado em português. Até então, meu contato com a produção cultural lusitana só tinha se dado através dos livros. Ouvir os sotaques na rua era delicioso! E o show do Madredeus na praia de Icaraí foi algo memorável...

Mas, voltando aos filmes... Infelizmente, já não lembro de quase nada, à exceção de um título, porque me fez rir na época. Ainda hoje acho graça. Chamava-se: “Mortinho por chegar a casa”. Não é ótimo? Trata-se de uma produção Portugal/Holanda de 96, realizada por Carlos Silva e George Sluizer. Não lembro dos detalhes, mas conta a história de um sujeito que morre no estrangeiro e vai assombrar a irmã para que ela o enterre em Portugal. E o filme é isso: uma comédia em que a mulher, sempre acompanhada pelo impaciente fantasma do irmão, tenta levar o corpo deste para ser enterrado na terra natal. Muito divertido, mas só quem pôde acompanhar a programação do evento, em Niterói, conseguiu assistir. Nunca mais ouvi falar.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Timor Leste: um país ignorado pela mídia

Hoje, em era de suposta democracia, seria de se esperar que tivéssemos acesso a todo e qualquer tipo de informação, sem restrições de ordem moral ou política. Afinal, já não vivemos mais em uma ditadura, já há a dita liberdade de imprensa e a globalização deveria promover uma maior integração entre os povos espalhados pelo mundo. Mais ainda: em busca de um fortalecimento cultural e mesmo econômico, os países de língua portuguesa deveriam estar em busca de uma aproximação cada vez maior. Deveria ser corriqueiro, por exemplo, sabermos o que acontece em Portugal ou Angola, tanto quanto o que acontece por aqui.

No entanto, basta passar os olhos pelos principais jornais e revistas brasileiros para ver que nada disso se verifica. Mal sabemos de Portugal, que dirá dos outros países... Aliás, pensando bem, mal sabemos de nós mesmos, já que nossos jornais vivem de repetir as matérias de todas as agências internacionais de notícias. Apenas repetimos o que é noticiado pelo mundo afora. Não temos acesso às notícias portuguesas, nem às angolanas e... menos ainda, às timorenses.

Tudo que chegou ao Brasil, nesses últimos 27 anos, a respeito do Timor Leste são ecos de uma independência, boatos a respeito de um massacre. Descontemos desses anos o período em que vivemos sob a ditadura militar, quando as notícias realmente eram filtradas antes de chegar aqui. O que se ouviu falar sobre o Timor desde então? Aliás, sejamos muito francos, quantos sabiam sequer que existia uma ex-colônia portuguesa do tamanho do nosso estado de Sergipe, ocupando metade de uma ilha entre a Indonésia e a Austrália? Quantos, então, sabiam que essa mesma colônia, vinha sofrendo com a dominação indonésia desde 1975?

A verdade é que só viemos a “saber” alguma coisa por volta de 1996. Foi nesse ano que o Timor conseguiu chamar a atenção (chamou mesmo?) do resto do mundo, revoltando-se de forma quase suicida contra a opressão. Um terço da população morreu em combate, em todos esses anos. A língua portuguesa foi praticamente desaprendida (proibida de ser falada sob pena de morte). O país foi praticamente destruído. E só agora a independência foi conquistada. Onde nós estivemos durante todo esse tempo?

Vale lembrar que essa história começou com a Revolução dos Cravos, em 1974, em Portugal, que libertou todas as colônias portuguesas ainda existentes. Inclusive o Timor. Porém, se Portugal, durante o período de colonização, pouco interferiu na organização política timorense, não seria depois de já ter libertado a colônia que iria realmente intervir. Então, o Timor ficou entregue ao seu destino. Afinal, na Indonésia, vigorava a ditadura de Suharto, que era patrocinada pelos Estados Unidos, assim como as ditaduras da América Latina, no mesmo período.

No entanto, o fim de nossa ditadura militar não fez com que soubéssemos o que acontecia do outro lado do mundo. O primeiro contato que tivemos com o problema timorense deu-se graças à internet, com correntes de e-mail falando a respeito do massacre. E o pior: era uma notícia tão absurda que muita gente nem leu o que estava escrito, acreditando ser apenas mais um boato. Nos jornais mesmo, nas revistas, pouco apareceu. Mesmo após a independência. Apesar de ter sido um dos últimos países por se decidir a ajudar, o Brasil tem sido um grande incentivador para a reconstrução do país. Apesar de não falar português há 20 anos, o Timor optou por ser um país lusófono. Para isso, conta com o apoio do governo brasileiro, que enviou para lá professores de português. Nossas novelas e músicas já começam a ser vistas e ouvidas pelo povo timorense.

No Brasil, a principal fonte de referência a respeito da situação timorense é o documentário Timor Lorosae – o massacre que o mundo não viu, dirigido por Lucélia Santos. Entretanto, mesmo este filme já não é muito atual. Desde o seu lançamento, em 2002, pouco se falou sobre o Timor Leste na mídia mundial. Menos ainda em âmbito nacional. É chocante pensar que algo com a grandiosidade do que aconteceu no Timor possa ter acontecido sem ser divulgado, sem que o mundo soubesse ou se importasse. Mas, pior ainda, é imaginar que essa situação continua a se repetir, não só em outros contextos, mas no próprio Timor, cuja reconstrução não vem sendo devidamente noticiada para o mundo.

De que adianta ficarmos orgulhosos de nossa tecnologia – que permite o acesso imediato a fatos ocorridos em todos os cantos do mundo – se hoje ainda é possível ocorrer uma falha tão gritante de comunicação? Por que a revolta no Timor não foi noticiada? Por que os outros países, que teriam condições de intervir, não fizeram quase nada? A verdade é que o Timor continua esquecido, assim como várias outras revoluções, revoltas e massacres que nossa mídia esconde de nós. Mais uma prova de que a tão propalada globalização é uma farsa e serve, apenas, para reproduzir um sistema de dominação e opressão.