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domingo, 30 de janeiro de 2005

Uma certa nostalgia

Ultimamente, venho pensando em como é difícil observar que as pessoas que nos rodeiam, justamente as mais queridas, da nossa família, estão envelhecendo. A conseqüência - natural, mas nem por isso menos trágica - é que elas vão morrer e vamos, aos poucos, perder nossas referências sociais. Hoje, elas estão aqui. Amanhã ou depois, talvez não estejam mais. É algo inevitável e que nos dá, por vezes, uma incrível sensação de impotência.

É pena, mas esse é um assunto sobre o qual não podemos falar com qualquer um, sob pena de ouvir aqueles velhos chavões: "faz parte da vida", "é assim mesmo", "não tem jeito"... De um sábio conformismo, admito. Sábio, porque, em face ao inevitável, o melhor talvez seja mesmo aceitar e pronto. Mas esse é um conformismo bastante incômodo, que não resolve nada. Na verdade, a pessoa vai continuar triste, a saudade vai bater do mesmo jeito... Ora, por que temos tanta dificuldade em lidar com essa história de morte?

Tenho pensado no meu avô (que já se foi) e, por tabela, no meu pai, na minha mãe, em todos os que ainda estão por aqui e, puxa, como eu queria que não se fossem jamais! Não se trata nem de eternidade, ou coisa parecida, o que eu gostaria era de saber quanto tempo terei com cada um, para poder aproveitar ao máximo. Não seria fantástico? Bem mais seguro, com certeza... Outra coisa que me deixa bem triste é pensar em que coisas passadas e que não vão acontecer de novo. Fotografias ajudam a lembrar, é verdade. Mas eu juro que ficaria bem mais satisfeita de voltar ao passado, observar tudo ali, in loco. Mas nem precisaria ser algo presencial. A vida podia ser, assim, uma espécie de dvd. A gente escolhe a cena a que deseja assistir. Imagina a quantidade de coisas que poderíamos lembrar, repensar, entender...

Entretanto, estamos restritos às lembranças que nossa tecnologia permite. E, talvez por medo, seguimos tratando tão mal nossos velhos... Dói perceber que a jornada deles está chegando ao fim. Dói saber que aquele futuro ali é também o nosso. E dói demais lembrar que, não faz muito tempo, eles eram jovens como a gente, tinham boa memória, andavam sem dificuldade... Caramba, como isso tudo é difícil!!! No fundo, Nelson Cavaquinho é que tinha razão ao cantar:

Sei que amanhã quando eu morrer,
os meus amigos vão dizer
que eu tinha um bom coração.
Alguns até hão de chorar
e querer me homenagear
fazendo de ouro, um violão

Mas depois que o tempo passar
sei que ninguém vai se lembrar
que eu fui embora.
Por isso é que eu penso assim:
se alguém quiser fazer por mim,
que faça agora.

(...)

(Quando eu me chamar saudade, Nelson Cavaquinho)


domingo, 12 de dezembro de 2004

Do porquê disso tudo:

Não criei este blogue para ser um diário on-line. Aliás, justamente por tentar escapar disso, demorei tanto a ter um espaço só meu. Antes, procurei acompanhar a trajetória de alguns amigos blogueiros e confesso ter ficado muito decepcionada com a maioria. Só depois de ver algumas experiências bem-sucedidas, foi que tomei coragem. Afinal, sou de um tempo em que diário ainda era coisa íntima, trancado a chave, guardado debaixo do travesseiro... E, além do mais, imagino que não tenha ninguém assim tão interessado na minha vida pessoal.

Esta é, portanto, a primeira e última vez em que falo tanto de mim. Claro que EU estarei presente em tudo que escrever por aqui, mas não pretendo me transformar no meu assunto principal. Quero que este blogue funcione como um café, onde as pessoas entram, sentam, ou ficam de pé no balcão, degustam uma bebida qualquer, um ou outro aperitivo, conversam, lêem o jornal e seguem adiante. Sempre tive uma certa simpatia por ambientes assim.

O nome CAFÉ ZURRAPA tem franca inspiração na música de Ary Barrozo - "Camisa Amarela" - e sua escolha tem a ver com a estranheza que a palavra zurrapa sempre me causou. Conheço a música desde criança e levei anos para descobrir o real significado desse termo... Engraçado como, mesmo sem saber o sentido exato (a terminologia dicionaresca, por assim dizer), sempre entendi ao que Ary Barrozo se referia com um café zurrapa. E você?

Bem, é isso. Por ora, fico por aqui.

Puxe uma cadeira. Sinta-se em casa!

Até mais ver...