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terça-feira, 30 de agosto de 2005

As pessoas são para o que nascem?


Capa do CD

Não tenho ido ao cinema, daí o “silêncio” deste blog nos últimos tempos. Vejo os filmes entrarem e saírem de cartaz, e eu sem muita disposição para assisti-los. Andei, inclusive, sem vontade de escrever e, por isso, acabei não comentando nada sobre o filme “A pessoa é para o que nasce”, que foi o último a que assisti no cinema. Perdão, Maria. Perdão, Regina. Perdão, Conceição. O documentário sobre as três ceguinhas de Campina Grande é obrigatório.

Fui ao cinema um tanto desconfiada, confesso. Em tempos de “politicamente correto”, implicava com a denominação ceguinhas. Afinal, por mais carinhoso que seja, um diminutivo é sempre um diminutivo. E pode ser bastante depreciativo. Além do mais, há toda uma pressão social que faz com que as pessoas sintam-se bastante desconfortáveis e não saibam qual a melhor maneira de referir-se àqueles que não enxergam. Acabam chamando-os de qualquer outra coisa, menos cegos. Alegam por aí que este é um termo pejorativo... Será mesmo? Deficiente visual não é pior?

Enfim, não pretendo me prolongar nesse assunto. O fato é que me incomodava um pouco o conformismo expresso no próprio título. E não conseguia entender o que fazia com que as pessoas se encantassem com aquelas senhoras. Afinal, outro dia mesmo, passando pela porta de um supermercado na Tijuca, vi uma senhora tão pobre, cega e desgrenhada quanto as 3 ceguinhas. Ela estava com seu pandeiro e cantava: ninguém parou para dar-lhe um centavo que fosse. Aposto mesmo que gostariam que ela estivesse bem longe dali e, de preferência, nem existisse. Será que é por que ela não está no cinema?

Debates sociológicos à parte, saí do cinema de alma lavada. As três ceguinhas são de uma espontaneidade capaz de calar a boca do mais fervoroso dos críticos. Com declarações por vezes desconcertantes, chega a ser divertido vê-las interagindo com o diretor. Aliás, Roberto Berliner está de parabéns, pois conseguiu abordar de forma poética um tema tão árido. Gostei tanto do filme que acabei comprando o CD, anunciado por elas enquanto descem os créditos. Boa aquisição: o primeiro é, praticamente, o próprio filme, sem imagens; já o segundo, traz releituras do repertório cantado por elas.

Transcrevo, a seguir, o texto de apresentação dos cds, escrito por Braulio Tavares:

A música é para o que nasce

Nasci e fui criado em Campina Grande, e as três ceguinhas que cantavam coco fizeram parte da minha paisagem durante a vida inteira, com seu trinado de vozes e seus ganzás, desgrenhadas como as feiticeiras de MacBeth, mas nunca ameaçadoras. Vozes tristes, maltratadas, mas com aquela pungência de quem não tem mais o que perder e qualquer coisa que ganhar é lucro.

O encontro das irmãs com Roberto Berliner, que resultou em filme e CD, é, para alguns, uma prova de que a nossa vida é regida pelo Acaso. Mas, quando Lia procura explicar a atitude das três diante da vida, produz a frase que acabou se tornando o título do filme, e que exprime a dificuldade em conciliar o sonho individual e a predestinação coletiva. Cada um nasce para preencher um destino que o espera. Tudo indica conformismo, resignação, e o fatalismo “maktub” de uma cultura que crê no Livro do Destino. Os que em vez de Acaso acreditam no Destino vêem justamente nesta alta improbabilidade uma prova de que aquele encontro “tinha de acontecer”, “estava escrito”.

O Som da Rua buscado por Roberto Berliner é este murmúrio constante que escutamos nas esquinas de qualquer cidade brasileira. Pessoas que cantam canções, que improvisam versos, que recitam, que tocam instrumentos toscos na calçada, com microfones primitivos presos ao pescoço, e amplificadores de segunda mão equilibrados em cima de um tamborete.

Por um lado, é a continuação de uma atividade típica de uma época sem rádio e TV, na qual só existia um tipo de música: a música ao vivo. Por outro lado, o rádio e a TV acabaram preenchendo com sua música incessante o dia-a-dia destas pessoas, multiplicando muitas vezes seu repertório, imprimindo em sua memória os sucessos passageiros e os clássicos que nunca deixam de ser tocados.

5 comentários:

Thomaz Amorim disse...

Bia,

Agora eu fiquei curioso. Mas, como briguei com o cinema (num bar a gente conversa sobre isso), espero que saia em DVD ou qualquer midia para ver o filme com mais calma.

Beijocas.

Beatriz Fontes disse...

Bem, depois você me conta porque brigou com o cinema (mas você paga a cerveja!). Mas, de antemão, já digo que farei de tudo para convencê-lo a fazer as pazes com ele... Quanto a sua curiosidade, sugiro que você entre no site do filme e "baixe" as músicas que estão disponíveis para download. Dá pra ter uma boa noção, enquanto o dvd não vem.

André Ferreira disse...

Espero que o filme chegue a Portugal, nem que seja em dvd!

Vou ouvir as músicas !

Anônimo disse...

soo vamos lah!
Soh vivendo nas ruas. Esse coracao
essa liberdade( sem regras tratados
valores etica e morais) estao nas calcadas dos desnudo do mundo. Os
homens e mulheres das ruas.
Alem dos sons, dos olhos das aparencias.
sad
Joao

Anônimo disse...

Assisti esse documentário Ontem, é muito bom! Pena que o sucesso delas foi repentino e Hoje elas ainda pedem esmola nas ruas.