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quinta-feira, 20 de outubro de 2005

É preciso vencer a inércia...


Capa do livro, publicado em 1999 Posted by Picasa


Sinto-me improdutiva: eis uma verdade que tem me assombrado. Tenho todo o tempo livre com que sonhava meses atrás e, no entanto, não consigo organizá-lo minimamente para fazer tudo o que julgava importante então. Quantas vezes pensei, por exemplo, durante o expediente, em como seria maravilhoso poder ir ao Festival do Rio e assistir a todos os filmes que quisesse! Quantas vezes sonhei acordada com exposições, peças de teatro, eventos mil, acessíveis apenas a estudantes, aposentados e/ou trabalhadores com um horário mais flexível! Hoje, tenho o tempo, mas me falta a iniciativa... E acabo deixando de fazer coisas que poderiam ser muito interessantes. A verdade é que, por mais que me incomode, sou fruto de uma sociedade capitalista que relaciona tempo a dinheiro, fazendo com que aqueles que não empregam formalmente sua força de trabalho sintam-se excluídos e imprestáveis. A ociosidade acaba, portanto, tornando-se uma grande inimiga.

Estar ociosa tem contribuído para minha apatia. Há dias em que minha inércia é tanta que não consigo sair de casa! Ir ao cinema, então... Para minimizar esse sentimento de prostração, venho tentando ocupar meu tempo com coisas que me dão satisfação e que possam vir a ser úteis para mim. Ou seja, continuo minha faculdade, estudo espanhol, tento manter-me atualizada com o mundo etc. Crio uma rotina, embora flexível: marco compromissos em minha agenda, elaboro um cronograma, faço planos. O problema é que isso me soa um tanto neurotizante... Parece que mesmo o tempo que empregamos em lazer e estudo, ainda que prazeroso, deve ser visto como um potencial gerador de renda no futuro, um investimento a longo prazo... Maldito planejamento estratégico!

Por essas e outras, penso em ler “O ócio criativo”, de Domenico de Masi (Sextante, 1999). O livro tem como pano de fundo uma profunda insatisfação com o modelo social imposto pelo Ocidente, cujo centro está na idolatria do trabalho, do mercado e da competitividade. A este modelo o autor contrapõe outro, no qual as pessoas – ao conseguirem se libertar da idéia tradicional de trabalho como obrigação – exercitam o “ócio criativo” e investem na simultaneidade de trabalho, estudo e lazer, privilegiando a satisfação de necessidades radicais, como a instrospecção, o convívio, a amizade, o amor e as atividades lúdicas. Só não sei até que ponto essa mudança de paradigma é possível... Mas por que não tentar?

Um comentário:

André Ferreira disse...

"O trabalho dignifica" diz à entrada de Aushwitz e duma frase vinda deste campo de concentração se constrói a sociedade actual!

Aproveita o ócio, há muitas coisas boas e gratuitas para fazer pelo mundo!