Pesquisar este blog

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Tão zoneado e tão perfeito

Sempre sonhei em trabalhar no Centro do Rio. Sou uma eterna apaixonada pela região e acho que ela é umas das melhores coisas que a cidade tem a oferecer. Para mim, não há nada melhor do que caminhar a esmo por entre ruas e becos de um bairro que esconde tantos tesouros. Um lugar onde há vários museus e centros culturais, bares e restaurantes tradicionais, comércio variadíssimo... Mil possibilidades ainda por descobrir, totalmente inacessíveis a quem trabalha longe dali. Pelo menos esse seria o raciocínio lógico, certo?

Entretanto, quem trabalha no Centro – como eu, que finalmente realizei meu sonho – não pode desfrutar de nada disso. Tudo bem, alguns dirão que eu não trabalho tão no Centro assim... Mas não acho que isso seja tão relevante. Afinal, gosto de andar e como rapidinho, ou seja, otimizo meu horário de almoço. O problema é que, por mais que me esforce, essa uma hora diária nunca é o bastante. Não dá para fazer quase nada (e olha que eu me esforço!).

Então, me restaria chegar mais cedo – e não encontrar ninguém nas ruas – ou atrasar minha volta para casa. E, nesse caso, continuaria sem visitar museu ou loja alguma, porque tudo fecha cedo. “Tudo não”, alguns dirão. Se o objetivo é tomar um chope, comer alguma coisa, pegar um cineminha... Ok, nesses casos, ainda é possível encontrar boas opções e a Lapa(!) é logo ali. Porém, para quem quer curtir o caos urbano do comércio do Centro, qual a solução? Passear pelo Centro na manhã de sábado? Talvez seja uma saída, é verdade. Mas, ainda assim, nada se compara a um dia de semana comum.

Hoje, porém, consegui curtir um pouco desse Centro de que gosto tanto. Caminhei da Presidente Vargas até o trabalho, ou seja quase até o aeroporto Santos Dumont. No caminho, o camelódromo da Uruguaiana, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, a Casa Cavé, o Largo da Carioca com uma Feira do Livro ainda por montar, a banca de jornais de onde se ouvia uma salsa, um pastor gritando qualquer coisa esdrúxula, a Cinelândia com os restos da abertura do Festival do Rio, a Santa Luzia e seus camelôs... Que vontade de parar! E minha avó no celular querendo ajuda para manusear sua nova máquina de pão. Tudo tão zoneado e tão perfeito.

Praia de Santa Luzia: Talvez eu seja saudosista, mas todos os dias
o vento no meu cabelo me diz que caminho sobre o mar...


4 comentários:

Flavita ♥ღ♥ღ♥ღ♥ღ♥ღ disse...

Gostei do texto, sobretudo qdo a máquina de pão da Sulamita é citada...kkkk...

Manoela Assayag disse...

Nem fala, Bia. Eu tinha a mesma sensação estagiando no Centro. Eu troco um passeio pelo Paço Imperial por qualquer tarde de sol na Praia de Ipanema, mas dá até vergonha de lembrar a última vez em que estive por lá!

Manoela Assayag disse...

Hahaha. Ok. Leia o contrário do meu comentário: eu troco qualquer tarde de sol por um passeio no Paço. Estou completamente louca, céus!

Beatriz Fontes disse...

Ainda a respeito da foto e legenda... Observem essa passagem de Esaú e Jacó, livro de Machado de Assis:

"(...) Aires, falando da enseada:

— Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a tabuleta do Custódio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, D. Perpétua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o efeito seria o mesmo. A enseada não difere de si. Talvez os homens venham algum dia a atulhá-la de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavalos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes."

Profética, não? Taí o Aterro que não nos deixa mentir.